sábado, maio 22, 2010

Questão de ordem



Todo mundo sabe que na Semana da Cultura Caiçara deste ano havia dois bons shows programados -- um na sexta, dia 14, com Almir Sater e outro no sábado, dia 15, com Sérgio Reis. Todo mundo deve saber também que os dois shows não aconteceram -- os artistas originalmente programados foram substituídos por artistas locais.

Não tenho informações sobre como foi o evento no sábado. Na sexta o que presenciei foi o seguinte: as autoridades presentes na Praça Coronel Julião não foram capazes de subir ao palco para oferecer explicações sobre a mudança de última hora ou para pedir desculpas pelo ocorrido.

Eu não me senti pessoalmente ofendido pela mudança, embora goste muito da música instrumental de Almir Sater. Problemas podem ocorrer e foi este o caso. Felizmente havia um grupo musical de Ilhabela disposto a animar aquela noite da Semana da Cultura Caiçara.

O problema, bastante sério, é a total displicência com que o assunto foi tratado pelos responsáveis. Isto é, não foi tratado. As informações disponíveis correram à boca miúda e até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu.

Não me interessa o fato em si, porque, como disse antes, não me sinto pessoalmente ofendido com o que houve -- a noite foi agradável, enfim. O que me preocupa é o que o fato representa: pessoas públicas que não vêm a público quando sua presença é fundamental, pessoas públicas que não compreendem qual é a hierarquia que devem seguir, pessoas públicas que não sabem o que é liderança, organização e representatividade.

Se ignoram todas estas coisas, explico.

-- Quando um problema surge na condução de qualquer aspecto da administração de um município, é fundamental que os responsáveis se manifestem, dêem todas as informações necessárias e coloquem-se à disposição caso surjam dúvidas sobre aquele assunto -- mesmo que seja um show numa festa popular.

-- Ocupar um cargo público, a despeito do onipresente cartaz que lembra o contribuinte dos riscos de ofender um funcionário público em ação, significa servir à população, não o contrário. Como dizem as definições clássicas, o poder do homem público emana da população -- e o dinheiro que o sustenta também. Só isto já seria suficiente para neutralizar instituições nauseabundas como a carteirada e o "você sabe com quem está falando?".

-- Um cargo público tem um enorme peso simbólico na condução de um município -- tanto maior é esse peso quanto mais alta a posição do indivíduo no organograma de uma prefeitura. Prefeitos, secretários, vereadores, deputados -- mais do que simplesmente realizar obrigações previstas na lei, todo homem público simboliza algo que influenciará a forma como a sociedade se constrói e se desenvolve.

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quinta-feira, maio 06, 2010

Outono

Àquelas pessoas que, como eu, sofrem de incontinência opiniática no que toca aos diversos problemas que afetam Ilhabela, o outono é época especial, cheia de sinais que, somados ou tomados isoladamente, são capazes de calar a boca até mesmo do mais resmelengo dos analistas.

Nesta época tudo é melhor. Sim, melhor.

Com temperaturas mais amenas, os turistas já começaram a subir a serra em busca do frio esnobe de Campos do Jordão. Só os que têm algum interesse genuíno em Ilhabela atravessam o Canal de São Sebastião; são turistas menos afetados pela moda, pelo point do momento, que não fazem questão de trazer para o arquipélago seu nojinho da rusticidade local. Eles a aceitam bem e é essa rusticidade que permite que a cidade seja um pouco mais sincera, um pouco mais simples, um pouco mais lenta.

Apesar das temperaturas amenas, ainda há calor suficiente para ir à praia, que ficam sistematicamente vazias no outono. É possível caminhar longamente sem esbarrar em ninguém ou nada além dos muros que insistem em invadir a areia. Quem já freqüentou uma praia vazia sabe o que significa poder ouvir o som manso do ir-e-vir do mar.

Além disso, não existe em Ilhabela época mais exuberante do que o outono. O calor do verão estreita nossa relação com o sol, mas é no outono que os panoramas mais espetaculares se revelam. O verão nos deixa extrovertidos demais, desejosos de roupas mínimas, incomodados com o chão quente e o suor abundante. O inverno nos deixa introvertidos demais; buscamos o sol com finalidade e nos basta o simples fato do alívio do frio. O outono nos convida a observar -- em vez de apenas buscar luz ou sombra. E a observação só é possível quando há silêncio.

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O céu se manifestou quando comecei a anotar estas palavras no papel. E ainda há quem acredite em coincidências.




Luz rara em outras épocas do ano. A câmera (de celular) não ajudou, mas o céu fez sua parte.

quarta-feira, abril 28, 2010

Aikido Ilhabela



O grupo de Shin Shin Toitsu Aikido de Ilhabela retomou ontem suas atividades no Hotel Petit Village. Mais informações sobre o aikido e sobre as aulas do grupo, aqui.

Sejam bem-vindos.

segunda-feira, março 29, 2010

Alívio

Fiquei aproximadamente dez meses sem vir para Ilhabela. Passei por aqui nas últimas festas de fim de ano, para rever a família e arejar os humores -- ocasião que não conta como um retorno, mas apenas como uma visita breve e efêmera.

Neste fim de março pude finalmente retornar e ficar aqui com tempo e disposição necessários para apreciar esta cidade, observar-lhe eventuais transformações e pensar nessas coisas com algum senso crítico. Ao fim deste processo senti alívio. A despeito do que ouvi à distância, Ilhabela não mudou em nada. Continua a ser exatamente igual ao que era quando a deixei, em junho do ano passado.

Eu disse em outras ocasiões que o que torna este lugar admirável é sua capacidade de não mudar, de manter-se exatamente como sempre foi. Jóias como o pico do Baepi, a Baía dos Castelhanos e até mesmo regiões mais urbanizadas como o Saco da Capela encantam justamente pela capacidade de se manter exatamente como são, sem esconder um alheamento diante das turbas que a cada feriado tentam lhes dar ares boçais. Turistas vêm, aos montes, mas uma hora eles acabam deixando esta cidade e deixam nela o silêncio permanente das noites de domingo, sem carros e com rodas de violão. Ilhabela pode não ter parado no tempo, mas é um alívio descobrir que ainda há traços de vinte anos atrás nestas terras. A paisagem não mudou, algumas pessoas também não mudaram.

Não quero parecer (novamente) nostálgico, mas é fácil perceber o valor dessas coisas. Veja esta foto, por exemplo:



Esta imagem do Saco da Capela tem aproximadamente trinta anos (clique nela para ampliar). Embora não seja uma foto nitida, percebem-se nela duas coisas. Primeiro, em trinta anos não houve diferenças importantes no desenho da pequena baía; até mesmo as grandes árvores da Ponta do Pequeá (pinheiros ou eucaliptos, não lembro exatamente) são as mesmas. Segundo, a quantidade de barcos aumentou consideravelmente; apesar disto, ainda é possível encontrar nesta praia a mesma atmosfera tranqüila de trinta anos atrás, com águas calmas e agradáveis -- talvez não tão limpas e cristalinas, mas ainda adequadas para o banho de mar numa semana sem chuvas.

Poucas pessoas notam, mas o que permite que este lugar mantenha seu valor é justamente o fato de existir gente interessada em coisas aparentemente sem valor, sem utilidade ou interesse particular. Muitas pessoas vêm para Ilhabela em busca de algazarra e movimento, mas o que realmente move este lugar são as pessoas que percebem a importância de fazê-lo parar.

domingo, janeiro 31, 2010

Para sobreviver em Ilhabela


 O título do post é o título de um artigo que escrevi em 2007 e que havia ficado perdido em meus arquivos. Cuidadoso que sou com o que produzo, nem sequer me lembro se ele foi publicado ou não.

Mas ei-lo publicado em meu blog pessoal. O assunto, como verão, não perdeu sua atualidade.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Ilhabela por Debret


Clica na imagem para ampliar

Pintura de Debret que mostra a Vila em 1827. Que traga bons augúrios para o novo ano. Ilhabela anda muito moderninha ultimamente e, ao contrário do que muitas pessoas podem imaginar, isso não tem trazido nada de bom para a cidade. O melhor que poderia acontecer com a cidade seria... retroceder.

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Meus agradecimentos e abraços aos amigos Wilson, Erika e Marie pelo envio da imagem.

quarta-feira, outubro 28, 2009

A verdade não está lá fora



Para minha surpresa, mais de uma pessoa já me pediu conselho sobre como tornar Ilhabela um lugar melhorzinho. Aqui vão algumas linhas sobre isso.

Em primeiro lugar, eu não acredito que seja possível tornar Ilhabela um lugar melhorzinho. O lugar já é bom, as pessoas é que o estragam. Isto é bem óbvio, não? E se é óbvio, fica patente que pedidos como aquele e a idéia de que Ilhabela pode se tornar um melhorzinho são, para dizer o mínimo, sintomas de miopia grave. Em outras palavras, se o que interessa é fazer algo bom pelo lugar, comece não sendo totalmente cego para os fatores que trouxeram decadência para o arquipélago e perceba que eles não estão lá fora.

Em segundo lugar, a ordem dos fatores e o senso das proporções -- sempre, sempre, sempre. A comoção popular por causa de problemas que afligem toda a população é algo bem comum -- e doentio. O cidadão vê problemas nos serviços públicos de saúde e quer -- como tantas outras pessoas -- bater boca com os manda-chuvas. Ora, se tudo estivesse às mil maravilhas, os manda-chuvas estariam à disposição para receber os cumprimentos. Como nada está às mil maravilhas, o máximo que você conseguirá é ver a cara de sádica da secretária do manda-chuva dizendo que o sujeito está em reunião. Ele tem mais o que fazer e você também tem. Não desperdice bala. Quando falo de "ordem dos fatores" e de "senso das proporções", eu quero dizer o seguinte: cuide do próprio nariz com seu próprio esforço. A rede pública de saúde está um caos? Cuide da sua própria saúde e da dos seus familiares. A violência urbana é um problema preocupante? Vá conhecer seu vizinho e mostre sua cara a ele; cultive um ambiente seguro em casa e nos arredores. Os espaços públicos estão abandonados, sujos e mal tratados? Qual foi a última vez que vocês os utilizou? Como está a sua calçada? É possível plantar uma árvore na frente de sua casa?

Muitas pessoas se irritam comigo quando digo que Ilhabela acabou. De fato, não há motivos para crer que a cidade que conheci no início dos anos 80 pode existir novamente. O tempo é uma das poucas coisas de mão única. O que pode voltar é aquilo que ainda existe. Cada vez que um turista chega a Ilhabela em busca de lampejos daquela tranqüilidade de outrora, abre-se a oportunidade para um caiçara se pronunciar, resgatar tradições que permanecem adormecidas, mas que ainda não morreram. Cada vez que alguém busca um telhado simples e sem forro, numa casa de tijolos de barro e caiação simples, a Ilhabela de décadas atrás encontra novo fôlego.

Mas são poucas as pessoas que se contentam com a riqueza das coisas simples. O conforto metropolitano faz falta para essas pessoas, que se incomodam com os pés sujos de areia ou de lama. Essas pessoas preferem burocracia, maquiagem, leis e um tipo de conforto que flerta com aparelhos de ar condicionado, guias turísticos ocos, palavras e ações oficiais. São gente que não gosta de gente. Gente que não gosta de lugar. Gente que constrói demais, que modifica demais, que derruba demais, que gasta demais e que vende demais. E que depois se queixa que Ilhabela já não é como antes. Essa gente merece passar as férias na Disney. Essa gente só quer souvernirs.

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terça-feira, setembro 22, 2009

Coisas perenes



O destino de todas as cidades turísticas é desmanchar naquilo que as pessoas acham que elas são. Há uma natural tendência de tomá-las por aquilo que elas aparentam ser sem avaliar se essa aparência tem alguma relação com a realidade.

É claro que ser e aparência não são atributos estanques, mas, por exemplo, há algo no modo de vida dos antigos que está completamente desligado da imagem associada aos lugares turísticos.

As pessoas costumam ver somente aquilo que está diante delas, no momento presente. Tudo o mais é ignorado e submetido a uma cegueira auto-infligida. Pior do que cegar-se voluntariamente é acostumar-se a não mostrar as coisas importantes -- por exemplo, as coisas perenes sobre as quais foram construídas as coisas boas que existem hoje.

Respeito e gratidão são dois bons motivos para ver e mostrar as coisas perenes, mas até mesmo o instinto de sobrevivência poderá mostrar a sensatez destas ações.

terça-feira, setembro 01, 2009

Florais de Bach



Atualmente existem muitos tipos de terapias alternativas com a finalidade de trabalhar as emoções. Nem todas são reconhecidas pela OMS – Organização Mundial da Saúde.

A terapia com Florais de Bach é reconhecida desde 1976.

O que são florais?

Essências extraídas de determinadas plantas que, segundo Edward Bach, criador da Terapia Floral, representam uma qualidade da alma. Bach catalogou 38 essências, relacionadas com as 38 qualidades que abrigamos como potencialidades, virtudes, ou Centelhas Divinas.
Segundo sua teoria, baseada em estudos e experiências vivenciadas em si mesmo, nossas emoções se distribuem basicamente em 7 grupos: medo, indecisão, desinteresse e desânimo, solidão, sensibilidade excessiva, desespero, preocupação excessiva.
De que maneira agem os florais?

Equilibrando nossas energias, abrindo nosso campo sensorial para nos percebermos integralmente. Os florais não tratam os sintomas. Quando sentimos dor, por exemplo, tomamos um analgésico. O floral não vai “curar” a dor, embora possa amenizá-la. Ele vai agir na causa da dor.

"Nossa saúde física depende do nosso modo de pensar, dos nossos sentimentos e de nossas emoções" -- Edward Bach.

Com a ajuda de um bom profissional, o processo na Terapia Floral é simples, rápido e eficiente. A Terapia Floral consiste numa primeira consulta quando o terapeuta, juntamente com o paciente, vai levantar as questões conflitantes e detectar as emoções a serem trabalhadas. Cada terapeuta tem seu método. Geralmente a consulta transcorre em uma hora a uma hora e meia. Ao final, sempre contando com a participação do paciente, são escolhidas as essências apropriadas para cada caso.

A consulta terapêutica é o momento em que o terapeuta dará ao paciente, todas as informações e recomendações para que o tratamento transcorra corretamente. Um retorno para avaliação, deverá ocorrer entre 45 a 60 dias.

Os florais não impedem nem substituem tratamento médico. Se estiver em tratamento, o paciente deve sempre seguir as orientações médicas. Também não apresentam efeitos colaterais, não causam dependência e não interferem com outros medicamentos. Podem ser usados por adultos, crianças, animais e até mesmo plantas.

Tudo que tem vida tem a Centelha Divina e por isso pode se beneficiar com o uso dos florais.

Uma excelente leitura sobre o tema é o livro do próprio Edward Bach, "Os remédios florais do Dr. Bach", em que ele expõe com clareza e objetividade, toda a base teórica da Terapia Floral.

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Em Ilhabela, caso queira orientação para tratamento com Florais de Bach, consulte Sonia Rocha, terapeuta floral.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Símbolo de Ilhabela

A estátua do caiçara desconhecido, em todo seu esplendor. Que linhas! Que proporções! Que fidelidade! Que porcaria...


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(meus agradecimentos à Marie Asmar por ceder a imagem)

sábado, agosto 08, 2009

Artistas de Ilhabela I

Esta semana recebi material maravilhoso de uma artista que é injustamente desconhecida em Ilhabela. É impossível não se perder contemplando as minúcias do quadro da sereia. Compartilho este material com vocês:









A artista chama-se Regina, que assina seus quadros como Marregi. Quem quiser agendar exposições, adquirir seus quadros ou simplesmente parabenizá-la pela beleza de seus quadros, envie um email para marregiartes@bol.com.br

segunda-feira, julho 20, 2009

Adagio molto



Este blog vai entrar em recesso por tempo indeterminado. Como alguns já devem saber, estou passando um período fora de Ilhabela e há chances de não voltar.

Nas primeiras semanas longe de Ilhabela acreditei que poderia manter minha ligação com o lugar -- e continuar colaborando com escritos e reflexões, tanto neste blog como no jornal Canal Aberto, em que eu costumava escrever. Mas houve o deslocamento, claro, e a mente tende a se situar onde o corpo está. As tentativas de manter a mente com foco nos problemas e questões de Ilhabela não funcionaram. É claro que para poder pensar e escrever decentemente sobre um lugar é necessário estar nele -- sobretudo porque este não é um blog de ficção.

Em razão disso, comunico aos dois leitores deste blog que as atividades aqui estão suspensas provisoriamente. Eventuais novidades serão publicadas aqui, é claro, e é possível que novas idéias e reflexões sobre Ilhabela surjam, mas convido-os a me acompanhar em meu site pessoal.

A todos que têm acompanhado o Insular, muito obrigado.

Update: quem tiver algum interesse em publicar neste espaço escritos sobre Ilhabela e contribuir não apenas com o Insular mas com as discussões sobre os problemas locais, basta me mandar um email: ilhabela [arroba] ig.com.br

Embora afastado das questões ilhabelenses, prometo analisar o texto cuidadosamente e, de fato o texto se mostrar adequado, publicá-lo em seguida.

A quem quiser colaborar, fica aqui meu convite.

terça-feira, junho 23, 2009

Pense pequeno



Meu artigo mais recente no jornal Canal Aberto.
Seja qual for o ramo, assunto ou objetivo, Ilhabela caiu há tempos no conto do «pense grande» e, mesmo que continue sendo uma cidade pequena, mesmo que consiga o milagre de manter intactos os limites do Parque Estadual, mesmo que não esgote completamente a beleza que ainda resiste em seus limites urbanos, já deixou de ser uma cidade pequena, já se alinhou com aquilo que de pior existe nas cidades grandes. Pode ser pequena, mas pensa grande há muito tempo.

sábado, maio 30, 2009

Questão de ordem

violência

Meu artigo mais recente no jornal Canal Aberto.
O Estado organizou-se bastante para assuntos que considera fundamentais, como alimentos saudáveis em cantinas escolares, a cruzada antitabagista em estabelecimentos privados e as lágrimas da menina Maísa na TV. Enquanto isso, quarenta mil homicídios por ano não são suficientes para tornar o assunto prioridade máxima. Mata-se mais no democrático e malemolente Brasil do que no radical e belicoso Oriente Médio.

terça-feira, maio 26, 2009

Cidade e Natureza

ilhabela satélite

O título deste post é também o título de minha dissertação de mestrado. Depois de três anos de estudos, terminei a pós-graduação e entreguei a pesquisa, sob orientação do Prof. Dr. Fábio Mariz Gonçalves, a quem sou profundamente grato.

Não posso deixar de registrar também minha gratidão à minha namorada e à minha mãe -- duas pessoas fundamentais em minha vida, que me apoiaram de diversas formas. Sem elas meu mestrado nem teria começado.

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Postarei aqui apenas o resumo e a introdução, que explicam bastante coisa sobre a dissertação. Quem tiver interesse em ler a pesquisa na íntegra poderá baixá-la aqui.

Comentários são bem-vindos.

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Resumo

Este trabalho discute a evolução urbana de Ilhabela e seus desdobramentos sobre a paisagem e o meio ambiente. Nas últimas quatro décadas o crescimento econômico e populacional trouxe importantes transformações para as cidades turísticas do litoral brasileiro, em especial para Ilhabela, cidade-arquipélago situada no Litoral Norte do Estado de São Paulo. Estas transformações são analisadas ao longo deste trabalho, bem como a importância do turismo e do mercado imobiliário nesse processo. Este trabalho também analisa alguns empreendimentos imobiliários de Ilhabela como forma de compreender as articulações entre o mercado imobiliário, o turismo e as políticas públicas para o meio ambiente e o desenvolvimento urbano.

Palavras-chave: Ilhabela, litoral norte paulista, urbanização do litoral, paisagem litorânea, mercado imobiliário, turismo


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Introdução

No fim da década de 1950 o município-arquipélago de Ilhabela integrou-se ao restante do Litoral Norte do Estado de São Paulo com a instalação do serviço de travessia marítima. O acesso à cidade, antes realizado em canoas caiçaras, passou a ser realizado com balsas, o que permitiu a entrada de veículos, inclusive pequenos caminhões. Essa pequena mudança na rotina da cidade foi reflexo de transformações nacionais e regionais mais amplas. Ao mesmo tempo, a acessibilidade a Ilhabela foi o primeiro estágio de uma série de grandes transformações que se estendem até os dias de hoje.

Com o acesso à cidade vieram o turismo e a construção civil, que logo se tornaram as principais atividades econômicas de Ilhabela. Esta mudança ajuda a explicar fenômenos como a migração, o veranismo, o crescimento populacional e a ocupação desordenada, a especulação imobiliária, entre vários outros que fizeram parte da constituição de Ilhabela nas últimas quatro décadas e que decorrem daquelas duas atividades.

No final da década de 1970, a criação do Parque Estadual de Ilhabela foi o reconhecimento do valor ambiental e paisagístico do arquipélago. Paradoxalmente, esse reconhecimento impulsionou as duas atividades de maior impacto sobre o meio ambiente -- turismo e mercado imobiliário.

A necessidade de preservar as condições ambientais e paisagísticas originais de Ilhabela -- que permitiram o florescimento daquelas duas atividades -- trouxe questões que até hoje não encontraram respostas adequadas. A continuidade dos modelos adotados atualmente pelo turismo e pelo mercado imobiliário representará o esgotamento dos recursos naturais e causará alterações drásticas na paisagem de Ilhabela, o que poderá inclusive inviabilizar essas duas atividades — tal é o dilema que ora se coloca.

Este trabalho discute a formação de Ilhabela a partir do advento do turismo e do mercado imobiliário e a forma como estas atividades alteram a paisagem do arquipélago e são influenciadas por ela. Além disso, este trabalho também discute o surgimento dessas atividades e a articulação entre elas e a paisagem.

O que motivou este trabalho desde seu início foi a idéia de que os problemas que ora se apresentam na cidade estão relacionados com a forma como os protagonistas da formação urbana de Ilhabela compreendem este lugar. Neste sentido, cada atividade desenvolvida no arquipélago é movida por razões particulares e representa também uma postura particular diante das questões ambientais e paisagísticas que determinam a morfologia da cidade e a qualidade do espaço para seus habitantes. Assim, outro objetivo desta pesquisa foi observar essas razões e posturas e analisá-las à luz das características ambientais e paisagísticas de Ilhabela.

Este trabalho está dividido em três partes. A primeira apresenta o arquipélago e o município de Ilhabela, focalizando sua história urbana recente e os aspectos paisagísticos e ambientais das transformações pelas quais a cidade passou nesse período.

A segunda parte apresenta como cerne as diversas formas e conceitos que o turismo e o mercado imobiliário adotam para apreender e alterar a paisagem. Entre os temas abordados nesta parte estão a evolução recente do mercado imobiliário, sobretudo nas cidades turísticas costeiras; os anúncios publicitários e as estratégias de marketing adotadas para a comercialização de empreendimentos imobiliários; e, finalmente, o entendimento que o turismo e o mercado imobiliário possuem das questões ambientais, paisagísticas e fundiárias diretamente relacionadas àquelas cidades.

A terceira parte discute a evolução urbana de Ilhabela e os principais fatores que condicionaram esta evolução; a atitude do mercado imobiliário e do turismo neste processo; o impacto ambiental e paisagístico de alguns empreendimentos realizados em Ilhabela; o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de Ilhabela (PDDI); e a postura do poder público e da sociedade civil diante dos problemas urbanos do arquipélago.

Esta parte da pesquisa divide-se conceitualmente em três partes: iniciativa privada, poder público e sociedade -- discutidas respectivamente nos capítulos 3.2, 3.3 e 3.4. O capítulo 3.2, ao tratar do mercado imobiliário, do turismo e dos empreendimentos, busca discutir o papel da iniciativa privada nas transformações ambientais e paisagísticas de Ilhabela. O capítulo 3.3 discute o papel do poder público municipal naquelas transformações. Por fim, o capítulo 3.4 avalia o entendimento que a sociedade — profissionais do setor imobiliário, formadores de opinião, imprensa e organizações não-governamentais -- tem sobre essas transformações.

sexta-feira, maio 15, 2009

Alvos fáceis



Em meu artigo desta semana no jornal Canal Aberto, destaco a questão da violência urbana e da criminalidade.
O poder público transmite um recado importante ao não colocar a defesa da vida como prioridade máxima em seus trabalhos. A competência para um cargo público pode ser medida pela forma como o sujeito define suas prioridades. Para trabalhar, investir no turismo e no mercado imobiliário, defender o meio ambiente e melhorar a infra-estrutura municipal é necessário antes estar vivo e ter a certeza de que sua família e seus bens não serão ameaçados. Qual brasileiro hoje pode ter essa certeza? Se nem mesmo os responsáveis por manter a paz e a ordem não têm senso de prioridades e não conseguem garantir a própria integridade, que dizer de cidadãos comuns?
Em minha opinião, a segurança pública e a defesa da vida deveriam ser as prioridades máximas de qualquer cidade. Todas as ações e políticas públicas deveriam ser desenvolvidas e avaliadas conforme a relação que têm com essas prioridades.

Por exemplo, a educação formal tem importante papel preventivo, assim como outros serviços e ações sociais básicas, como saúde e geração de empregos. Ações estruturais -- como realização de obras públicas -- interferem em alguma medida na segurança pública, já que delas podem depender a acessibilidade, a facilidade de deslocamento e a prevenção de crimes.

Naturalmente, algumas ações interferem diretamente. Outras, indiretamente. Mas há algumas que não interferem em nada. Em meu artigo eu chego a mencionar algumas ações públicas que são absolutamente inócuas e que deveriam ser deixadas de lado até que a criminalidade despenque a níveis humanamente aceitáveis.

Destaco ainda o peso que os crimes contra o patrimônio têm em Ilhabela. São freqüentes as ocorrências desse tipo, ainda que haja pouca divulgação pela imprensa local e regional. Muitas pessoas subestimam a importância desses crimes, já que eles afetam geralmente pessoas de poder aquisitivo mais alto, que, com efeito, recorrem a estruturas e serviços de segurança particular. Mas os crimes contra o patrimônio estimulam outras formas de crime, inclusive o organizado. E são ameaças à vida como qualquer outro crime.

Destaco também o problema da violência urbana representado por brigas e agressões -- bastante comuns na noite ilhabelense, principalmente em finais de semana. Estas ocorrências são as menos registradas e, por isso, raramente participam das estatísticas. É importante lembrar que um brutamontes que se põe a brigar na rua ou numa balada está cometendo um crime. Ao mesmo tempo ele colabora para piorar o ambiente social, como se este já não estivesse insuportavelmente ruim e violento.

Fico surpreso quando vejo que a maioria dos briguentos é gente conhecida, gente que freqüenta bares, restaurantes e eventos sociais em Ilhabela. Essas pessoas participam da sociedade ilhabelense como se fossem sujeitos dignos de respeito, como se o espancamento fosse um expediente razoável para resolver conflitos sociais.

Mas a surpresa diminui quando lembro que a história recente de Ilhabela traz inúmeros casos de pessoas públicas que saíram na mão, que chegaram às vias de fato. Quando até os homens públicos resolvem desavenças na porrada, o que esperar das pessoas que votam neles, que pagam seus salários, que seguem suas leis?

Talvez as coisas mudem quando houver uma intolerância generalizada a todas as formas de violência.

quinta-feira, maio 07, 2009

Proibido vender coxinha

Cigarros, coxinhas, batatas fritas, guaraná e os consumidores e comerciantes desses produtos são elevados à categoria de vilões. Enquanto isso, os verdadeiros vilões permanecem livres. Certamente é mais fácil proibir o consumo de coxinhas do que o consumo de maconha e cocaína; assim, o Estado constrói uma imagem de bom-mocismo e competência às custas da liberdade do cidadão. Só que o Estado não está genuinamente interessado em defender o cidadão. O Estado está interessado em aumentar o próprio poder, em invadir a vida do cidadão com restrições cada vez maiores e mais numerosas e em livrar-se das responsabilidades que não foi capaz de cumprir até hoje, pois o que é visto ajuda a esconder o que não é visto.

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Como o leitor poderá notar, meu artigo da quinzena no jornal Canal Aberto não trata de assuntos diretamente ligados a Ilhabela. Minha intenção foi, no entanto, alertar para a criatividade dos legisladores, que não é exclusiva dos deputados estaduais.

Em Santos, por exemplo, vereadores aprovaram lei que obriga restaurantes a fornecer fio dental para seus clientes. O que mais impressiona nessas iniciativas é, como disse em meu artigo, o aplauso geral. Muitas vezes nem mesmo os comerciantes vêem nessas leis qualquer traço de totalitarismo.

Oras, nada contra oferecer fio dental, alimentos saudáveis, cafuné, o que quer que seja aos clientes de restaurantes e de outros estabelecimentos. Recentemente estive num restaurante em cujo banheiro havia não apenas fio dental, como enxaguatório bucal -- achei genial. Acho apenas que isso não é da conta do Estado; deputados e vereadores simplesmente não devem perder tempo com essas questões.

Eu e você pagamos (alto) a essas pessoas para que cuidem de assuntos realmente importantes. Não me interessa ter fio dental no banheiro de um restaurante se ao sair de lá eu fico preso num engarrafamento ou se sou assaltado no primeiro semáforo em que paro.

As coisas essenciais estão longe de ser resolvidas. Logo, para o inferno com a criatividade para inventar leis -- aqui em Ilhabela, em Santos, em São Paulo, em qualquer lugar.


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Nota de agradecimento: por sugestão do leitor Pedro Volcoff, alterei a imagem do topo do blog (header). O próprio Pedro muito generosamente desenvolveu o novo layout e me mandou a imagem via email. A foto continua sendo a de sempre -- a praia do Pequeá (Engenho d'Água), foto que fiz em 2007 --, mas o novo layout é dele. Ao leitor-designer, meus sinceros agradecimentos.

terça-feira, maio 05, 2009

Lição de casa

ilhabela ocupação urbana
(clica para ampliar)

A lição de casa da semana é ler O nosso espião do espaço, matéria da VejaSP sobre a ocupação urbana no Litoral Norte SP. Eis a introdução:
Um dos cenários mais belos de toda a costa brasileira, o Litoral Norte de São Paulo reúne o céu e o inferno em suas praias espremidas entre o Oceano Atlântico e as montanhas verdes da Serra do Mar. Quem percorre a Rodovia Rio-Santos assiste atônito à sobreposição de paisagens: costões, curtas faixas de areia, mar cristalino, ilhotas e... favelas. Cada vez mais favelas. Os aglomerados de barracos que invadem a maior faixa contínua de Mata Atlântica do país estão ali por um problema demográfico. Desde 1985, quando a estrada foi asfaltada, a população dos municípios de São Sebastião, Caraguatatuba, Ubatuba e Ilhabela praticamente triplicou. Como 80% do território faz parte de parques estaduais (da Serra do Mar e de Ilhabela) e os outros 20% estão salpicados de áreas de preservação permanente, como mangues, restingas e beiras de rio, o espaço físico disponível para ocupação humana é limitadíssimo. Mesmo assim, o poder público assistiu de braços cruzados à invasão desse paraíso. Com a chegada de turistas atraídos pela facilidade de acesso e de migrantes que viam no boom imobiliário oportunidades de emprego, desapareceram do mapa 730 hectares de bromélias, orquídeas, palmitos, ipês... Uma área equivalente a quase cinco parques do Ibirapuera.

Além do desmatamento, essa expansão frenética vem deflagrando uma série de outros problemas. Sem sistema de tratamento, o esgoto contamina o solo e a água. Como consequência, os rios e as praias ficam poluídos. Por falta de espaço para aterrar o lixo, tudo o que se descarta na região tem de ser transportado para outras cidades. Não raro o transbordo causa acidentes na estrada que corta a floresta. Há ainda o funcionamento desordenado das marinas, que despejam óleo, combustível e outros produtos tóxicos na areia e no mar. Para fiscalizar os quatro municípios, a Polícia Militar Ambiental dispõe de 110 homens. É pouco. Outras 323 pessoas trabalham para evitar invasões e conter a ação de caçadores dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, um terço delas na porção que fica no Litoral Norte. São insuficientes também. Para piorar esse cenário, estão previstas ali quatro obras de grande porte. Até 2013, o Porto de São Sebastião deve ser ampliado e a Rodovia dos Tamoios, que liga Caraguatatuba a São José dos Campos, duplicada. A Petrobras pretende construir uma unidade de tratamento de gás e um gasoduto que cortará a serra ao meio. Além dos impactos ambientais inerentes a essas intervenções, elas criarão 4 000 postos de trabalho e atrairão ainda mais gente.

quinta-feira, abril 16, 2009

Sobre a nova enquete



Como alguns já devem ter notado, perguntei aí ao lado, na nova enquete, se Ilhabela (i.e. o poder público municipal) deve limitar a entrada de veículos no arquipélago.

Ano passado foram discutidas diversas formas de criar essa limitação, diante da necessidade cada vez maior de lidar com os problemas causados pelo excesso de veículos, principalmente em feriados.

Não surgiram soluções que levassem a essa limitação. No máximo foi criada a «taxa ambiental», o que, na cabeça de seus criadores, poderia compensar o caos gerado pelo excesso de veículos no município. A taxa ambiental não compensou nada, é evidente, e ainda aumentou o custo para entrar no município.

Diante disso é razoável perguntar, se essa limitação é desejável. Em seguida, se for o caso, podemos pensar em discutir os meios de criar efetivamente essa limitação -- porque a taxa ambiental não cumpre essa função, embora sempre estivesse associada a essa iniciativa.

Por favor participem da enquete. E quem quiser comentar esse tema, poste um comentário no link abaixo.

A todos, muito obrigado.

Cresçam

Se eu tivesse o péssimo hábito que 90% da população tem de apelar para o vereador mais próximo tão logo apareça um buraquinho na rua, eu pediria não o recalçamento das ruas do meu bairro, mas idéias, propostas e ações que diminuissem a importância que os políticos têm sobre nossas vidas. Eu pediria meios de fazer a população crescer moralmente e dispensar a ação política como principal instrumento para o desenvolvimento da cidade.

Ou você acha que políticos são eleitos em razão de sua superioridade moral e intelectual?