sábado, maio 31, 2008

Malditos sejam os ignorantes

rodin ignorancia

O artigo a seguir tem o mesmo espírito deste post. Trata-se, no entanto, de um versão mais enxuta e mais palatável, para aqueles que não gostam de longas histórias lamuriosas. Embora não fale especificamente de Ilhabela, todas as idéias presentes no artigo foram formadas com base em histórias vividas neste lugar.

Leia lá, em meu site pessoal: Malditos sejam os ignorantes.

E a Vila?

vila ilhabela

Post encontrado no blog do Guia 4 Rodas. Vale a pena ler até o fim, inclusive para pensar nas transformações pelas quais a Vila tem passado recentemente. Seria excelente se elas estimulassem um retorno àquela condição pacata anterior à eclosão do turismo dos anos 80 e que os moradores voltassem à Vila.

Para isso, um bom começo seria organizar o receptivo dos navios (que hoje é um caos de jipes, vans e stands feiosos), acabar com os foguetórios e disciplinar os eventos que acontecem na Vila.

Dona Mariquinha não nasceu em Ilhabela, mas mora na rua Dr. Carvalho há mais de 50 anos. Sua casa é uma das poucas da Vila, o centrinho da cidade, que preserva a fachada original, com batentes azuis e porta que abre direto na rua. Ela, no alto de seus quase 80 anos, faz parte de uma das oito famílias que resistem à comercialização do lugar. “Antes, todo mundo ficava sentado na rua, em frente ao mar. Não tinha estacionamento, não tinha tanto carro nem essas lojas todas”, lembra. “Tenho fé que as coisas vão mudar. Antes, a rua do Meio vivia cheia de gente até de madrugada por causa dos bares. Agora, isso acabou”, diz, com razão. A rua São Benedito, conhecida como rua do Meio, e a própria Vila não são mais as mesmas.

As agências bancárias que se concentravam ali foram para o novo centro comercial, no Perequê. Os bares, que tanto movimentavam o centrinho, fecharam as portas e os poucos que ainda resistem, em frente à praça Coronel Julião, não atraem mais muita gente – e, dizem os boatos, acabam de ser comprados por uma gigante imobiliária, que pretende fechar parte do quarteirão (perguntei, mas ninguém confirmou – ou desmentiu – essa história). Os jardins próximos ao píer se transformaram em vagas para o tal do estacionamento rotativo, que acaba de ser implantado na ilha. As fachadas das casas, que eram como de Dona Mariquinha, algo similar a Parati, hoje lembram mais shoppings, com suas grandes (e bem caras) vitrines. E até a centenária (e histórica) canoa exposta no meio da praça perdeu o sentido. Ali, bem em frente a ela, a prefeitura montou um feioso quiosque de dúvidas sobre o estacionamento rotativo que, ou está vazio, ou cheio de gente que não se importa muito em dar informações.

Dá uma certa pena conversar com Dona Mariquinha, tão saudosa. O curioso é que fui atrás dela justamente porque ninguém sabia me contar direito a história do local. Se você se interessa pelo assunto, bata na porta dela, vizinha ao Ponto das Letras. Ou dê uma passadinha na Padaria Dona Cristina, que fica na esquina da Dr. Carvalho com a Santa Tereza, onde há fotos da Vila de antigamente. Na rua da Padroeira, seu Chiquinho, o dono da Drogaria Nova Esperança (que era só Esperança quando foi construída, na década de 20) tem algumas lembranças. No Centro de Integração Ambiental, que funciona no prédio da antiga cadeia, há uma exposição que tenta mostrar o passado e a cultura da cidade por meio de fotos e de algumas maquetes. Lá, procure o Joãozinho. Ele e qualquer outro antigo caiçara vão ficar felicíssimos em saber que alguém está interessado na história de Ilhabela.


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Imagem obtida aqui.

quinta-feira, maio 29, 2008

URGENTE

Continuo com dois cachorrinhos para adoção. Eles foram recolhidos da rua, na Vila, atrás da EEPSG Gabriel Ribeiro dos Santos.

Infelizmente não tenho condições de ficar com eles, pois já tenho três cachorros em casa. Quem puder ficar com eles ou souber quem pode ficar, por favor entre em contato comigo o mais rápido possível.

A todos, muito obrigado.

terça-feira, maio 27, 2008

Viveiro Municipal Aroeira

muda árvore

A quem tiver interesse (eu espero que muitos se interessem), a Prefeitura de Ilhabela continua o bom trabalho desenvolvido no Viveiro Municipal Aroeira e oferece mudas de espécies vegetais nativas em troca de alimento não-perecível.

O Viveiro Aroeira fica junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente, nos arredores da Cachoeira da Água Branca. Para saber mais:

Secretaria Municipal do Meio Ambiente: (12) 3896 3832
Viveiro Municipal (nem sempre tem gente lá pra atender telefone): (12) 3896 4112

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Original da imagem aqui.

domingo, maio 11, 2008

Mapa de Ilhabela

mapa ilhabela

Para baixar versões em alta resolução desta imagem:
-- Imagem JPG 1024x768
-- Imagem JPG de alta resolução (6,24MB)
-- Arquivo PDF (5,08MB)
-- Arquivo DWG original (para AutoCAD; 10,03MB)

quinta-feira, maio 08, 2008

Mensagem para você

ciclovia ilhabela
Ciclovia: lugar ideal para caminhar num dia de sol

Eu decidi que a partir de hoje vou tornar as coisas pessoais. Certos eventos só me interessarão na medida em que se manifestem diretamente a mim, na medida em que eu possa presenciá-los e me posicionar em relação a eles. Nada de tratar genericamente dos problemas desta cidade. Nada de me dirigir a pessoas que jamais se interessarão por aquilo que e escrevo. Nada de falar de temas universais, apelando para o bom senso metafísico que a maioria das pessoas têm. A atitude mais correta num mundo acostumado às banalidades do anonimato, das multidões e da impessoalidade é buscar pessoalidade e substância em tudo.

Este artigo, portanto, é para você, turista sem nome que encontrei na balsa, numa travessia recente. Você estava se apoiando numa latinha de cerveja que, depois de entornar a última gota do líquido amarelo, foi lançada ao mar. Eu pude ver que sua vida estava naquela latinha naquele momento e teria sido ótimo ver você voando como peso morto para o fundo do mar, junto com ela. Eu tentei dizer a você, turista sem nome, algo sobre a gravidade do seu ato e tudo que você foi capaz de responder foi «da próxima vez eu chamo você pra recolher minha latinha», como se falta de educação pudesse tornar seu ato risível.

Se eu pudesse dedicar-lhe algumas palavras, elas seriam: caia fora, vá jogar latinhas no chão da sua sala, Ilhabela não quer você. Porcaria, falta de educação e boçalidade têm limites. Mas você, turista sem nome, não merece conselhos. Merece apenas manter-se longe deste arquipélago. Não adianta falar com você, como não adiantou quando você fez o que fez.

Este artigo também é para aquela família adorável que caminhava faceira na ciclovia. Você, mulher, conduzia uma senhora idosa na ciclovia, a despeito dos riscos a que vocês se expunham fazendo isso. Eu, como ciclista, preocupei-me em não atropelar as duas infratoras; ainda me preocupei em parar minha viagem e orientá-las e alertá-las para o risco de um atropelamento. Você, mulher, rosnou para mim e disse que o erro era meu e que eu devia cuidar da minha vida. Você tinha razão e até seria divertido ver você lidando com o tipo de ciclista que costuma freqüentar a ciclovia -- alguns portam peixeiras, facões e pedalam numa roda só. Mande lembranças àquele seu filho ou sobrinho que queria me parabenizar pela minha atitude e torça para que ele não seja atropelado enquanto demoniza quem tenta alertar para os riscos a que sua avozinha está exposta ao caminhar numa ciclovia.

Se eu pudesse dizer algo a você sem ser interrompido por latidos, eu pediria que você e sua família se mantivessem longe desta cidade. Sugeriria também que você e sua família caminhassem na avenida principal, de preferência às 6 da tarde de qualquer dia de semana. Se vocês são capazes de hostilizar ciclistas, talvez encontrem ainda mais diversão xingando caminhoneiros e motoqueiros enquanto disputa espaço com betoneiras, picapes e motos.

Este artigo é dedicado também a você, jipeiro que quase me atropelou enquanto eu esperava a liberação do trânsito para fazer uma travessia segura. Decerto você estava com muita pressa, porque vinte segundos fizeram muita diferença. Vinte segundos foi o tempo que levei para encontrar condições de segurança e fazer a travessia da avenida. Nesse intervalo você postou seu jipe atrás de mim e começou a me xingar, como se eu estivesse ali exatamente para atrapalhar você.

Consta que você ainda trabalha como jipeiro nesta cidade e parece-me que as pessoas daqui não têm a opção de não conviver com a sua estupidez. Se eu pudesse lhe dar um conselho, eu lembraria a você que a boa educação conserva os dentes e ajuda no crescimento profissional. Torço para que os turistas que você transporta não ouçam as barbaridades que você me disse e que você, sua família e seus clientes possam se livrar de sua falta de educação.

Dedico este artigo também a você, motorista da prefeitura que quase me matou na estrada, perto da praia do Curral. O mais curioso é que você não viu a besteira que fez, limitando-se a ficar irritadinho quando o xinguei pela barbeiragem que quase me custou o pescoço. Você foi incapaz de dirigir direito, mas foi muito capaz de frear sua kombi em cima de mim e sair do veículo para tentar me agredir. Seu destempero deixou claro que você dá mais valor à honra de sua mãezinha do que à vida -- principalmente se for a vida dos outros. Nem quero imaginar como é um lugar em que as pessoas têm esse tipo de escala de valores.

Você não merece conselho algum. Merece apenas que sua carteira de habilitação seja confiscada e que você nunca mais encoste as mãos num automóvel. Vai lhe fazer bem andar a pé.

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Quem lê estas coisas sem ter qualquer relação com os fatos a que me refiro aqui deve imaginar que se trata de miudezas muito particulares. Sim, são miudezas muito particulares. Elas dizem respeito só a mim e, como eu não sou uma pessoa pública, cuja biografia pode ter alguma importância para a cidade, é natural que cada um desses eventos morra comigo. Eles só foram preservados porque resolvi escrever sobre eles.

Ocorre que as pessoas que fizeram essas coisas comigo continuam vivendo em algum lugar. Desde que esse lugar não seja aqui, fico tranqüilo.

O que me deixa menos tranqüilo é a idéia de que cada um desses fatos tenha sido coisa irrelevante para eles também, os principais responsáveis pelos próprios fatos.

O sujeito que atirou a latinha no mar parecia se orgulhar do que fez, como se fosse direito seu fazer isso. A mulher que me xingou na ciclovia mostrou-se visivelmente ofendida quando a orientei a manter sua mãe idosa longe de lá, para a segurança de ambas. O jipeiro que me xingou na avenida só não passou por cima de mim porque eu desviei a tempo. O motorista da prefeitura que quase me atropelou e que em seguida quase me encheu de porrada continua trabalhando na mesma prefeitura; ficou nervoso na hora e depois sua vida prosseguiu. A forma como os fatos aconteceram e o que aconteceu depois demonstram que essas pessoas não dão a mínima para o que outras pessoas podem dizer de seus atos.

O que me preocupa é precisamente isso. Eu continuo vivo e com saúde; o que me acontece é problema meu. O que acontece a esses imbecis também deveria ser, desde que suas biografias não cruzassem com a minha biografia e a colocasse em risco. O problema é que cruzaram e colocaram minha vida em risco e não consta que elas tenham pensado em algum momento na merda que fizeram.

Não se trata de fazer justiça, trata-se de manter essas coisas vivas e criar alguma chance de que algum dia essas pessoas se responsabilizem pela merda que fizeram. Se isso não é possível por vias legais, que seja por algum tribunal divino ou pessoal. Por isso esse discurso pessoal. Não tenho a menor vontade de encontrar essas pessoas novamente -- o turista beberrão e porco, a mulher irritadiça e ofensiva e seu filho nervosinho, o jipeiro troglodita, o motorista da prefeitura barbeiro e kickboxer. Espero apenas que lhes venha à memória a lembrança desses fatos e a noção de que o que fizeram foi errado.

Se cada pessoa puder ser responsabilizada pelo menos pelas merdas que fizeram em público, talvez esta cidade melhore um pouquinho. Se de um lado o que predomina é a estupidez e a falta de educação, de outro lado a boa memória pode evitar que essas pessoas levem suas vidas como se fossem exemplos de boa conduta social. Tento fazer minha parte refrescando a memória delas. De quebra, tento refrescar a memória do leitor que eventualmente fez coisas parecidas com as que narrei aqui. A próxima mensagem pode ser para você.

sábado, abril 26, 2008

Notas breves (mais do mesmo)

ilhabela logo

-- Ao ver as bandeiras da Cetesb na praia, pense no seguinte: não importa a cor delas -- verde ou vermelha -- o simples fato delas estarem lá é sinal de que há muito tempo as coisas vão mal. Praias constantemente limpas não precisam de avaliações semanais. O ideal, portanto, não é limpar as praias ao ponto delas estarem próprias sempre, mas ao ponto da avaliação se tornar desnecessária. Não se trata apenas de eliminar a poluição, mas ir além e eliminar a possibilidade de que elas possam ficar poluídas um dia.

-- Eu não falo mais com pessoas que levam cachorros na praia. Geralmente estes é que são mais compreensivos. Além de tudo, ultimamente a água no Canal de São Sebastião tem estado pior do que areia com bosta de cachorro. Que os bichinhos fiquem à vontade para usar a praia como banheiro; talvez isso melhore a qualidade da água. Porca miséria.

-- Existe aqui, como em muitas cidades turísticas, um fetiche por coisas perfeitas demais. Calçadas lisas demais, paredes brancas demais, trânsito organizado demais. Falta substância, sobra aparência. Falta história, sobra novidade. Do que Ilhabela precisa afinal?

-- A avenida principal de Ilhabela é um lugar extremamente barulhento. Para um lugar que até bem pouco tempo estava acostumado ao barulho de tucanos, maritacas e outros bichos, é muito preocupante. Some-se a isso, aliás, o aumento natural dos decibéis durante feriados e temporadas.

-- Benefícios imensos a qualquer cidade cujos cidadãos pedalam e caminham em vez de dirigir motos, carros e caminhões. Ilhabela segue na contramão, preocupando-se mais com aqueles que poluem e fazem barulho do que com aqueles que não poluem e pedalam e caminham em silêncio.

sábado, abril 12, 2008

Evolução populacional de Ilhabela

Evolução populacional de Ilhabela nos últimos 50 anos. O gráfico mostra o forte crescimento entre os anos 1980 e 2000 e, talvez, uma leve tendência à redução no ritmo desse crescimento. O último ponto do gráfico refere-se a 2007 (IBGE), quando Ilhabela tinha 23.886 habitantes.


(Clica na imagem para ampliar)

Passado presente



Leia aqui meu artigo da quinzena.

O que o mantém em Ilhabela? O que faz com que você prefira este lugar a qualquer outro? Se você enriqueceu, talvez queira responder que foi o êxito profissional e as conquistas financeiras que o mantiveram aqui todos esses anos. Se não enriqueceu, se não conseguiu o êxito profissional desejado, dirá que o que o mantém aqui é a conveniência da beleza do lugar, da ascendência familiar ou a aparente possibilidade de não viver sob o peso dos problemas urbanos, porque aqui eles (ainda) são brandos e suportáveis. Nos dois casos, acredite, você estará tentando acobertar aquilo que realmente o mantém aqui — os sentimentos. Admita, você gosta daqui. Sempre gostou, no passado ou no presente.

domingo, março 30, 2008

Panorâmica



Criei uma conta no Flickr, onde a partir de hoje adicionarei algumas imagens de Ilhabela. Muitas delas estão sendo usadas na pesquisa que estou desenvolvendo para o mestrado na FAU-USP.

O álbum com imagens de Ilhabela pode ser visto aqui: http://www.flickr.com/photos/christiandrs/sets/72157604314778133/

sexta-feira, março 28, 2008

Gandalf para prefeito



Leia na íntegra meu artigo da quinzena no jornal Canal Aberto.

Eu ainda me surpreendo ao ver que as pessoas crêem de verdade que coligações são coisas bacanas demais; que o que acontece entre quatro paredes legislativas ou executivas é mais importante do que aquilo que acontece fora, todos os dias; e que assinaturas e canetadas valem mais do que aquilo que é feito nesta cidade, inclusive quando as repartições públicas estão fechadas e os fiscais dormindo. Cria-se assim a impressão — falsa, é claro — de que um prefeito é uma espécie de Gandalf, o mago de «O Senhor dos Anéis»: um sábio de poderes mágicos que resolverá todos os problemas com um golpe de cajado. Você realmente acredita que política se faz com garganta e caneta? Me poupe. Isso é politicagem em sua pior forma, não política. Você já viu esse filme e sabe que o final é sempre lamentável.


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Original da imagem aqui.

domingo, março 16, 2008

Não há vagas

Você acha que as praias de Ilhabela estão cada vez mais lotadas nos feriados e temporadas? Você precisa conhecer a praia de Haeundae, na Coréia do Sul...

coréia do sul

(Clica na imagem para ver outras fotos desta praia e para ver a foto deste post em versão ampliada)

sexta-feira, março 14, 2008

Os donos da ilha

caiçara

Vi ontem o documentário «Os donos da ilha», que pode ser visto no You Tube, dividido em três partes:

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=M1EykaWSz7o
Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=erGPOYbFu3M
Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=srNQyv2c2RA

Algumas impressões:

1) Assistam. Não é um documentário completo (principalmente por ser breve), muito menos conclusivo, mas é fundamental para quem quer tentar compreender a questão da cultura caiçara e sua presença no arquipélago.

A partir daqui meus comentários citarão trechos do documentário. Talvez você prefira assisti-lo para depois ler o restante deste post. Ou não.

2) É um documentário pessimista. A impressão que se tem é que a cultura caiçara se perdeu e não há solução. Bem, a cultura caiçara se perdeu (isto é um fato) e realmente não há solução (isto já é opinião). Na verdade, a cultura não é algo que se «perde». Perdem-se costumes, tradições são deixadas de lado e, afinal, a cultura se transforma. O fato é que o caiçara deixou de ser o habitante típico do litoral. Ilhabela, como a maioria das cidades do litoral, é formada hoje por migrantes -- paulistas da Grande São Paulo, mineiros e baianos, entre outros. Existe em Ilhabela forte influência da cultura que essas pessoas trazem para cá, sem falar no próprio impacto sócio-cultural que o próprio turismo traz para o arquipélago.

3) Pessimismo não é realismo. Realismo incluiria mostrar o outro lado de uma situação que parece não ter solução. As tradições caiçaras estão se perdendo? Sim. A cultura caiçara está desaparecendo? Não. Ela está se transformando. Para compreender o que essas transformações significam é necessário analisar o impacto de tradições perdidas, da cultura que influencia a cultura caiçara e dos valores que são trazidos de fora. Através dessa análise pode-se avaliar uma situação.

4) Um dos itens dessa análise é a relação do homem com o mar e com a terra. Os caiçaras relacionavam-se com o mar e com a terra de uma forma mais próxima porque dependiam deles para viver. Nós hoje também dependemos, mas temos dificuldade em ver e compreender essa dependência. É claro que isso foi uma perda, que trouxe mais danos do que benefícios. Uma questão que se pode desenvolver é como fazer com que esses benefícios ajudem na reparação dos danos -- e esta questão não é diferente daquelas propostas nas discussões ambientais acerca da sustentabilidade. Ganhar-se-ia muito, portanto, colocando pés no chão e avaliando a situação tal como ela é hoje, não como ela pode ser daqui alguns anos.

5) A respeito disso, aliás, uma «dica» foi dada quase sem querer pelo grande Mazinho, que aparece em alguns momentos do documentário. Ele diz algo como «ainda bem que tem marina, o Yacht Club, a balsa, senão esse pessoal [pescadores] estaria todo sem trabalho», sem perceber a ligação entre os fenômenos que prejudicam a pesca e outras tradições caiçaras e os fenômenos que levam à construção de marinas e ao aumento do número de embarcações de recreio no arquipélago. É sempre uma faca de dois gumes. O desenvolvimento escasseou os cardumes, mas trouxe emprego. Estes empregos não têm relação direta com a cultura caiçara, mas são bons. Ao mesmo tempo são sintomas de um processo que ajudou a degradar a cultura e as tradições. Uma questão que se coloca é se o que acontece aqui não faz parte de um processo muito mais amplo, comum ao restante do país e do mundo.

6) O documentário é fundamental não por fazer um alerta sobre algo que pode acontecer, mas sobre algo que já aconteceu e que é a realidade neste momento. Eu gostaria que ele fosse visto sempre desta forma. O problema é que a maioria das pessoas pensa: «Puxa, a cultura caiçara está se perdendo». Não, ela já se perdeu. Que ela exista ainda em algumas pessoas e em algumas festas folclóricas e religiosas, é mero acaso, mera sorte. O que devemos perguntar -- individualmente, para início -- é o que é cultura, o que ela representa para você e, afinal, por que as tradições são importantes. Não adianta suspirar pela perda de algo que você só valorizou como souvenir. Se isso não for feito, nenhuma cultura será valorizada, nem a caiçara, nem a nossa própria cultura, que é o que nos permite viver com alguma lucidez.

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Original da imagem aqui.

quarta-feira, março 12, 2008

Para entender a balneabilidade das praias



Num tópico na comunidade Ilhabela no Orkut perguntaram sobre os critérios e a lógica que poderia haver nas avaliações de balneabilidade das praias de Ilhabela, feitas pela Cetesb.

Há praias visivelmente impróprias que são vistas com bandeiras verdes, enquanto praias tradicionalmente boas -- ou, pelo menos, que costumam ser reconhecidas como de boa qualidade -- têm bandeiras vermelhas.

A resposta que adicionei ao tópico, toda ela baseada nas informações que a própria Cetesb transmitiu numa audiência pública ocorrida no ano passado, pode eliminar algumas dúvidas.

Sobre este assunto, escrevi isto um tempo atrás:
http://ilhabela.blogspot.com/2006/06/matando-o-mensageiro.html
http://ilhabela.blogspot.com/2007/05/quero-minha-praia-de-volta.html

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Na audiência a que me refiro no primeiro texto, pessoal da Cetesb veio esclarecer como eram feitos os levantamentos. Alguns intens importantes da explanação oferecida:

1) Existe um «lag» entre a coleta de amostras e a colocação da bandeira. Este «lag» se deve ao fato de que as amostras são levadas para São José dos Campos, onde são analisadas. Os resultados demoram cerca de um dia para serem obtidos. Leva mais um tempo até que funcionários da Cetesb voltem ao litoral para colocar as bandeiras. Naturalmente, dispõe de poucos funcionários para todo o litoral norte, o que torna o processo ainda mais lento.

2) A qualidade da água varia muito mesmo em uma mesma praia -- ainda que seja pequena. Há trechos em que o esgoto rola solto, como todos sabemos. Contudo, dependendo da correnteza, esse esgoto tanto pode se dissipar rapidamente e nem chegar ao ponto onde são colhidas as amostras como pode ficar todo acumulado na orla de toda a praia. Pode acontecer também do esggoto derramado numa praia acumular-se em outra praia tida normalmente como limpa e própria.

3) O regime de chuvas é um fator que influencia muito a qualidade das praias. Um período de seca melhora sensivelmente a qualidade das águas. Basta chover para descer esgoto e sujeira para o mar. Novamente, vale aqui o que foi dito sobre o «lag»: bandeiras verdes podem ser vistas em períodos de chuva, de mar lamacento; enquanto que em períodos de seca as bandeiras vermelhas podem ser vistas às vezes, a despeito da boa aparência das águas.

4) O levantamento da Cetesb pretende -- palavras dos próprios profissionais na audiência pública -- ser apenas um referencial, não um atestado 100% seguro da qualidade da praia. A presença ocasional de uma bandeira vermelha significa que aquela praia está sujeita a quedas na qualidade. IMHO, isso já é alerta suficiente.

Na ocasião da audiência os próprios vereadores questionaram a possibilidade de haver alguma má intenção dos profissionais da Cetesb. A explicação deles eliminou qualquer mal-estar.

O que há, como talvez tenha ficado claro no texto «Matando o mensageiro» é um interesse local em que os boletins «negativos» não sejam divulgados. Há diversas ocorrências de bandeiras vermelhas que foram roubadas das praias e a impressão que algumas pessoas têm é que a Cetesb se coloca «contra» o município quando divulga boletins que revelam a qualidade decadente de nossas praias.

As praias não são sujas por elas mesmas, por razões naturais -- embora isso possa ocorrer também. Em Ilhabela, o que estraga as praias é o esgoto. Por isso a chuva é um fator decisivo: basta chover para o esgoto descer para as praias e torná-las impróprias.

Podem tentar culpar a Cetesb por divulgar os boletins de balneabilidade, podem querer culpar São Pedro, mas o fato é que a cidade está estragando as praias.

Se não é possível evitar que os rios e córregos corram para o mar, talvez seja possível evitar que o esgoto chegue a eles.


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Original da imagem: acervo do autor.

sábado, março 08, 2008

Sobre as mudanças neste blog

Como muitos notarão, o layout deste blog foi modificado novamente. Com algum tempo e paciência descobri os novos recursos do Blogger (alguns nem tão novos assim; apenas novos para mim, que raramente estava atento a eles). Por partes:

1) A imagem do topo é da Ponta do Pequeá -- fotografia que tirei cerca de um mês atrás. Além do significado pessoal que esse lugar tem, escolhi essa imagem por causa de sua pouca exuberância, comparada com as «imagens de poster» que a maioria das pessoas escolhe para representar Ilhabela. Autenticidade é uma virtude e é bom que as imagens correspondem àquilo que o lugar é. A meu ver, Ilhabela é tal como a imagem do topo deste blog mostra: um lugar mais sereno do que exuberante, mais normal do que extraordinário -- e são estas qualidades que o tornam especial, humano e próximo dos pés e dos olhos de quem vive nele.

2) Todo mês (espero) este blog terá uma enquete diferente. Participem e dêem sua opinião aí na barra lateral. A primeira enquete deste blog, como vocês podem notar, trata de política e dos principais problemas de Ilhabela.

3) Escolhi o padrão «Georgia» para as fontes para dar um aspecto mais formal ao blog. Naturalmente não espero com isso ser levado mais a sério; apenas gostaria que as fontes e o aspecto geral do blog transmitisse o tipo de reverência que tenho para com este lugar e os problemas que o afligem.

4) Como de costume, continuo receptivo a sugestões. Se você as tiver ou se quiser comentar algo, tecer críticas ou simplesmente descer o malho, sirvam-se das caixas de comentários dos posts deste blog ou enviem-me um e-mail em christian arroba gropius ponto com.

sexta-feira, março 07, 2008

Não diga que é impossível

vila ilhabela

Artigo da quinzena no jornal Canal Aberto.

Quando uma pessoa pública declara que uma determinada ação necessária para o bom funcionamento da cidade é impossível de se realizar, eu lembro do médico que desenganou o paciente que contraiu uma gripe. A atitude digna do profissional é buscar soluções e, quando elas não existem, pesquisá-las e criá-las. Sempre haverá uma solução e será razoavelmente fácil desenvolvê-la quando se tenta oferecer uma resposta sincera a um problema, mesmo que ele pareça insolúvel.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Cidades para bicicletas, cidades de futuro

urban cyclist

Estou disponibilizando para download a publicação da Comissão Européia para Meio Ambiente sobre bicicletas e a importância desse meio de transporte para o desenvolvimento sustentado das cidades. O título da publicação é o título deste post. Trata-se de uma obra lúcida e objetiva, que demonstra -- para quem ainda tem dúvidas -- que a qualidade urbana depende da utilização de meios de transporte tidos hoje como "alternativos". Naturalmente, a bicicleta é um desses meios e talvez aquele que concilie melhor a necessidade de deslocamento com a necessidade de planejar e melhorar o ambiente urbano.

A publicação fala ainda das vantagens econômicas do uso de sistemas de transporte alternativos e de como o carro pode ser um tiro pela culatra no que diz respeito à rentabilidade e à funcionalidade das cidades.

A todos aqueles que pretendem fazer algo por Ilhabela, que gostariam de resolver as questões viárias da cidade (que já se tornaram há tempos um problema sério de saúde pública, com mortos e acidentados) e que, ao mesmo tempo, se dizem de mãos atadas, a leitura desta publicação pode ser um bom começo.

Para baixar a obra em formato PDF (que pode ser lida pelo Acrobat Reader ou pelo Foxit Reader), basta acessar este link:
http://www.4shared.com/file/39093412/a554f56b/Cidades_para_bicicletas_-_CE.html

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Original da imagem aqui.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A matemática da preservação



Ilhabela, cidade campeã de preservação da Mata Atlântica

Quantas vezes você já ouviu ou leu isso? Façamos algumas contas para saber o que isso significa.

O arquipélago de Ilhabela tem 348 km² de área. Desse total, estima-se que 83% estejam preservados.

O Parque Estadual de Ilhabela, que integra a ZRT (Zona de Restrição Total) do arquipélago, corresponde a 78% da área total do arquipélago.

Agora considere o seguinte:

Área total do arquipélago de Ilhabela: 100%
Mata atlântica preservada: 83%
Parque Estadual de Ilhabela: 78%

Considerando que o Parque Estadual é responsabilidade do Governo do Estado e é protegido pelo decreto estadual nº 9414, de 20 de janeiro de 1977, estes números equivalem a dizer que, de um total de 83% de mata atlântica preservada, apenas 5% estão efetivamente no município de Ilhabela, isto é, sob responsabilidade do poder público municipal.

Se a área do município fora do Parque Estadual equivale a 22% de todo o arquipélago, percebemos que a preservação no município é muito menor do que se imagina, menos de 1/4 da área que efetivamente pertence ao município.

Naturalmente, temos que considerar o fato de que dentro desses 22% está situada a cidade -- com casas, comércio, ruas etc. Mesmo assim, são números bastante reveladores, que dão outro aspecto aos índices de preservação de mata atlântica no arquipélago.

Eu já havia falado disso antes. Desta vez, com números, fica mais difícil ter dúvidas da importância do Parque Estadual para o arquipélago e da participação do município -- sociedade civil e poder público municipal -- na preservação do meio ambiente. Não que estas coisas não possam ser percebidas sem os números, mas diante deles não há muito o que discutir. Há, sim, muito para fazer.

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Original da imagem aqui.

Pague para estacionar

Poucas pessoas sabem, mas os parquímetros instalados na Vila são provisórios. Estão em fase de testes e deverão ser substituídos em breve por um modelo mais elegante, moderno e definitivo:



Em breve, muito em breve, dizer que "usar carro em Ilhabela é um jogo de azar" não será mera força de expressão.