terça-feira, setembro 12, 2006

Três assuntos



Plano Diretor


Ao longo deste mês de setembro têm ocorrido reuniões na Câmara Municipal para discussão e, ao fim e ao cabo, aprovação do Plano Diretor. Fui à primeira, não irei às demais. Primeiro porque conheço pouco o Plano Diretor (que pode ser lido aqui).

Segundo porque sinto que serei mais útil estudando as leis municipais detalhadamente (não apenas o Plano Diretor), o que, além de tudo, é uma de minhas obrigações acadêmicas.

Terceiro por causa de uma idiossincrasia do poder público: os vereadores responsáveis pela aprovação do Plano Diretor simplesmente não o conhecem, não o leram, pouco sabem do que se trata. Assim, as reuniões são uma forma de apresentar o Plano aos edis, que invariavelmente são interrompidas com dúvidas elementares. A cada interrupção da apresentação do Plano fica clara a incapacidade de compreensão de alguns dos nossos representantes. E isso, amigo leitor, me dá gastura, muita gastura.

Postei estas linhas no Orkut, vale a pena repeti-las aqui:
Do texto que já foi composto, aparentemente pouca coisa deve mudar com as reuniões. Há alguns pontos polêmicos, como os que estabelecem a criação da "taxa ambiental" (objeto de um outro tópico nesta comunidade) e a criação de sub-centros nas regiões sul e norte, mas no geral o plano é bom -- à parte a pouca capacidade de compreensão de texto por parte de alguns políticos.

É interessante lembrar também que a maior parte das diretrizes propostas com o Plano Diretor já está prevista em outras leis, algumas de âmbito federal e/ou estadual. É o caso da Lei 7.661/88 (Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro), uma das bases para muitas diretrizes propostas pelo Plano Diretor.

Leis municipais nunca podem ser menos restritivas do que as leis estaduais e federais. O Plano Diretor de Ilhabela, assim, reforça o que determinam aquelas leis e criam novas diretrizes, orientações e restrições, conforme as particularidades do arquipélago.

Reforma na Vila


Lamentável, lamentável, lamentável. O feriado mostrou a que a reforma veio. Primeiro, a fachada principal da Praça da Bandeira foi tomada pelos carros e não há nada que convide a apostar em mudanças. Segundo, a criação de vagas para carros faz toda diferença do mundo, já que uma zona azul está nos planos da Prefeitura desde o começo deste ano, pelo menos. Terceiro, se a urbanização proposta para a segunda fase da Praça da Bandeira for semelhante à primeira, à Praça da Mangueira ou à Praça do Pequeá (a.k.a. Praça de Eventos Prefeito Roberto Fazzini), estamos f..., digo, perdidos -- como se perder três árvores monumentais não fosse ruína suficiente.

Como disse em meu artigo, de pouco adianta chorar pelo leite derramado. Adianta ficar atento e estudar o assunto que causa comoção e desconforto. A mim, a lambança na Praça da Bandeira serviu como um aviso (mais um...) a respeito do tipo de gente que conduz o município. Como arquiteto e como pesquisador da área de paisagismo sinto-me envergonhado de ver a paisagem da cidade em que vivo arruinada por causa da vaidade de dois ou três políticos.

O mais curioso é observar a grande falsa-seringueira da Praça Coronel Julião (talvez o último grande exemplar dessa espécie na Vila). Será ela a próxima vítima?

Turistas e a malfadada taxa ambiental

Millôr disse, com muita razão, que o turista é o câncer do meio ambiente. Em que pesem a vocação do município e a reafirmação dessa vocação inclusive no Plano Diretor, o feriado de 7 de setembro não deixou dúvidas sobre isso.

A taxa ambiental, que visa inibir o acesso de turistas motorizados a Ilhabela, parece boa para muitas pessoas, inclusive as mais sensatas. Não consigo deixar de pensar em algo que escrevi em 14 de fevereiro deste ano:
Políticos deviam se envergonhar de criar novos impostos. Não apenas porque eles oneram o já sofrido contribuinte, mas porque demonstram a incapacidade dos políticos para resolver os problemas da sociedade sem recorrer à solução fácil e definitiva: meter a mão no bolso alheio.

Não que seja necessário baratear o turismo em Ilhabela -- embora na minha opinião seja, sim. Basta ter um pouco de criatividade. Se o objetivo da taxa ambiental é inibir a entrada de veículos no município, ela já nasceu morta: o alto custo de uma taxa não garante que pessoas evitarão o lugar para evitá-la, garante apenas que pessoas mais ricas acessarão o lugar. Em vez de um congestionamento com Escorts e Unos, teremos um congestionamento com Mercedes e BMWs. E os motoristas não mudarão substancialmente.

O problema do turismo em Ilhabela está vinculado a um tipo específico de turista, como já se discutiu exaustivamente, inclusive no Orkut. Este tipo de turista não é o turista classe A, B, C ou D, mas o turista mal-educado, que existe em qualquer classe. O tipo e o custo do turismo praticado por aqui já fazem as vezes de filtro social. Em vez disso é necessário um filtro moral, que barre a entrada de indivíduos estúpidos no município. Isso nenhuma taxa é capaz de fazer.

domingo, setembro 10, 2006

Artigos de setembro



Em meu saite pessoal, meus dois artigos de Setembro nos jornais de Ilhabela:

A paisagem transformada, no Jornal da Ilha

A paisagem em ruínas, no Jornal do Arquipélago

terça-feira, agosto 29, 2006

Escolhendo um candidato

Para quem vai votar este ano e, como eu, não sabe em quem, este questionário pode ser de grande ajuda -- desde que os candidatos se dignem a respondê-lo.

quarta-feira, agosto 23, 2006

domingo, agosto 20, 2006

Reforma na Vila I


Eu era assim...

A aflição daquele que se comove com o corte de árvores urbanas é análoga ao calculismo de quem planeja o corte. Os dois estão certos e os dois estão errados. Certos em querer defender seus respectivos interesses, porque eles são justos. Errados em ignorar a realidade que é sempre mais complexa do que sugere a percepção de uma pessoa interessada.

No caso da Praça da Bandeira, a complexidade da realidade está nos seguintes fatos:

1) A paisagem urbana não é apenas aquilo que se vê. Há muito mais do que aparência na paisagem.

2) Lugares têm história, mesmo que existam pessoas como, por exemplo, Oscar Niemeyer.

3) Árvores urbanas exigem cuidados, manutenção e planejamento, ainda que a maioria de nós ainda creia na espontaneidade dos ritmos da natureza.

4) O que é antigo não é necessariamente bom.

5) Cortar árvores pode ser necessário às vezes. A possibilidade dessa necessidade aumenta no caso de árvores urbanas.

6) Todo projeto (paisagístico ou arquitetônico) deve considerar dois tempos: o tempo de realização das coisas, o tempo gravado na memória das pessoas.

terça-feira, agosto 08, 2006

Crime e espaço urbano

Vi na TV que um dos mentores dos ataques do PCC havia sido preso no litoral norte. Pensei: "...em Caraguatatuba?". Abri o saite do Imprensa Livre e vi: em Caraguatatuba não, ele foi preso em Ilhabela. A notícia relaciona o criminoso com o assalto ao Banco Bradesco ocorrido em maio, poucos dias antes do primeiro ataque do PCC.

O litoral norte ainda não se acostumou com o crime. Em minha opinião, é uma questão de tempo até que isso ocorra. Alguns indicadores dão validade a esta idéia: ocorrências cada vez mais freqüentes, muros altos, cercas elétricas. E cada vez mais as pessoas se fecham em seus guetos (miseráveis ou luxuosos), deixando a cidade ao léu. Em breve não haverá mais lugar para o cidadão comum. Chegará o dia em que será necessário estar vinculado a uma dessas três forças para circular livremente nas cidades brasileiras: o poder público, o poder do crime ou o poder da blindagem.

O lugar nada significa nessas horas. Tem significado aquilo que é possuído -- daí as cercas, os muros, a vigilância. E assim as cidades se tornam terra-de-ninguém.

O curioso é ninguém perceber a relação entre o uso público do espaço urbano e a presença de criminosos na cidade. Quanto mais condomínios fechados, vigilância e barreiras para evitar o crime, mais liberdade os criminosos adquirem para circular pela cidade e mais insegura ela ficará.

Uma dica: visite a nova Praça da Mangueira, na Água Branca, e veja também os primeiros movimentos da grande reforma na Vila. É bastante curioso perceber a tabula rasa feita nestes lugares. Foram piedosos com as árvores, mas não com as pessoas, não com as memórias. Onde não há memória, não há moral. Onde não há moral, predomina o vício, o crime, o materialismo
hedonista do aqui-agora.

Volto a este assunto em breve. Deixe seu comentário enquanto isso.

domingo, agosto 06, 2006

O mau turista: uma digressão


Cadê o turista que tava aqui?

Menas
, gente, menas.

Convidadas a citar os principais problemas de Ilhabela, muitas pessoas se apressam ao falar do mau turista, do turista porco, do turista mal educado. É mesmo?

Turista que é turista não passa o ano inteiro em Ilhabela. Talvez o mais endinheirado dos turistas passe no máximo 30 ou 40 dias de seu ano nesta cidade. Daí a primeira pergunta:

Será que em 30 ou 40 dias o turista consegue fazer mais estragos em Ilhabela do que o sujeito que vive aqui os 365 dias do ano?

Aliás, será que o turista que pode passar 30 ou 40 dias em Ilhabela é do tipo que faz estragos? Eu duvido que seja. Assim, faríamos a pergunta anterior trocando o sujeito da frase pelo turista que só passa feriados aqui: será que em 10 ou 15 dias o turista consegue fazer mais estragos em Ilhabela do que o sujeito que vive aqui os 365 dias do ano? É claro que não.

Daí a segunda pergunta:

Quando você fala do mau turista, do turista porco e do turista mal educado, você quer dizer que não há nada de errado com o mau morador, com o morador porco e com o morador mal educado? E com a má pessoa, com a pessoa porca e a pessoa má educada, algum problema?

Percebeu?

Sim, sim, minha gente. Turistas porcos são um problema — assim como o morador porco, o arquiteto porco e o estudante porco. Pessoas porcas são um problema, em qualquer lugar, em qualquer condição, assim como as pessoas más ou as pessoas mal educadas.

Uma pessoa me diz que os moradores têm mais consciência, não deixam lixo nas praias etc. e tal. É verdade: eles preferem esportes mais radicais, como lançar esgoto em córregos, deixar lixo e entulho em ruas e terrenos baldios e erguer construções irregulares (em favelas ou condomínios).

Mas o problema, de verdade, é culpar sempre os outros.

terça-feira, agosto 01, 2006

Ciclovia

Enviei o seguinte e-mail à Divisão de Trânsito de Ilhabela. Espero, sinceramente, que ele não seja ignorado.


Prezado sr. diretor,


talvez a baixa temporada seja um momento oportuno para discutir alguns assuntos que em outras épocas do ano ficam em segundo plano. A despeito do bom trabalho desenvolvido
pelos profissionais do trânsito de Ilhabela, eu, como ciclista, tenho visto alguns problemas na ciclovia tal como ela se oferece ao cidadão atualmente.

O primeiro e mais notável é O FATO DE A CICLOVIA NÃO TER CONTINUIDADE. Como sabemos, trechos não fazem uma ciclovia. O que existe atualmente é bom, mas insuficiente. São especialmente perigosos para todos (ciclistas, pedestres e motoristas) os pontos em que a ciclovia termina (ou começa): invariavelmente os ciclistas usam a rua ou a calçada, misturando-se com pedestres ou automóveis.

Outro problema importante é a PRESENÇA CONSTANTE DE PEDESTRES NA CICLOVIA. Não sei se por falta de informação ou por falta de educação, muitos pedestres fazem questão de andar na ciclovia. Tento às vezes orientá-los, mas já houve quem me respondesse com grosserias ou ameaças de agressão. Percebo que a ausência ou a má qualidade das calçadas em alguns trechos faz com que os pedestres prefiram a ciclovia para caminhar. Mas na maioria dos casos a calçada tem o tamanho necessário e suficiente para a caminhada.

Trechos especialmente problemáticos são o do Morro da Cruz e o da ponte de madeira, no Perequê. São lugares bastante utilizados por pedestres, onde não há calçadas próximas para escape.

O primeiro problema pode ser resolvido com a firme decisão da prefeitura concluir a ciclovia e, quem sabe, estendê-la além dos limites da Vila e da Barra Velha. Esta decisão surge da consciência de que a ciclovia não é meramente uma infra-estrutura de lazer e recreio, mas de trânsito, extremamente útil e que pode aliviar os crescentes problemas de trânsito. Desnecessário dizer que o turismo também poderá ser beneficiado com ciclovias melhores e mais extensas.

O segundo problema se resolve com educação, sinalização e fiscalização.


Percebo que a sinalização existia, mas foi destruída por vândalos; talvez formas alternativas funcionem melhor, como a pintura do piso, à maneira do que é feito em ruas e avenidas. Muitas pessoas andam na ciclovia simplesmente porque demoram a notar que não se trata de um passeio para pedestres. Faixas para pedestres e a palavra "ciclovia" pintada em pontos estratégicos do piso podem ser formas mais adequadas de sinalização.


A fiscalização inexiste para pedestres e ciclistas. Já ouvi de um fiscal que é impossível fiscalizar a circulação de pedestres e de ciclistas, já que não existe legislação específica para isso. Mas não será responsabilidade dos fiscais também orientar os cidadãos? Sempre me impressiono quando vejo fiscais do trânsito atuando com profissionalismo e severidade no trânsito de carros e motos e simplesmente ignorando os erros notáveis que ciclistas e pedestres cometem -- alguns até potencialmente perigosos. Ainda que não existam leis para estas pessoas, por que não abordá-las e orientá-las?


A educação pode ser feita através da atuação dos fiscais. Pelo que sei, parte dela tem sido feita em escolas municipais, o que sem dúvida é uma ação importante, que dará frutos num futuro breve. Mas ela se mostra insuficiente para a atual condição do trânsito e, sobretudo, do uso da ciclovia. Campanhas de educação simplesmente não funcionam com moradores adultos. E há também muitos turistas que insistem em fazer da ciclovia seu belvedere; para eles as campanhas de educação também não são muito eficientes.


Como ciclista e cidadão, espero que estas palavras encontrem algum eco.


Sem mais, agradeço a atenção e aguardo sua resposta.


Com meus melhores votos,


Christian Rocha

quinta-feira, julho 27, 2006

Lembrete

Este blogue não foi desativado. Apenas estou passando uns dias longe de Ilhabela e, portanto, longe dos assuntos ilhabelenses. Em breve volto à programação normal. Enquanto isso, quem tiver interesse pode ler alguns de meus escritos aqui.

A todos, muito obrigado.

sexta-feira, julho 07, 2006

Sonho de uma noite de outono

À ocasião da LDO2007, quando a Prefeitura de Ilhabela oferecia espaço em seu saite para os cidadãos se manifestarem, escrevi este artigo irônico. Eu devia tê-lo publicado antes, mas ele ficou perdido em algum canto do meu HD.

Comentários são bem-vindos.

quinta-feira, julho 06, 2006

O futuro de Ilhabela


Hong Kong, China

ou


Portofino, Itália

Faça sua escolha.

sábado, junho 24, 2006

Matando o mensageiro II - Êxodo

É curioso esse fenômeno. Já falei disso algumas vezes neste blog, mas a insistência de algumas pessoas em repudiar quem declara as porcarias de um lugar me faz lembrar daquele slogan patriota — e estúpido — "Ame-o ou deixe-o".

Perguntam-me: se Ilhabela é tão ruim, por que você não se muda? Eu jamais respondo; quem faz esse tipo de pergunta não merece uma resposta decente, elaborada. Mas talvez eu possa respondê-la aqui.

Não me mudo porque para encontrar um lugar melhor eu terei que ir muito longe, e eu ainda não tenho recursos suficientes para isso.

Também não me mudo porque gosto daqui, minha família vive aqui e ainda há coisas boas neste lugar.

Não me mudo talvez porque não seja a hora e talvez porque tenha alguma esperança (pouca, é verdade) de que este lugar volte a ser o que era quando o conheci.

Não me mudo por idealismo e ingenuidade.

E você? Por que vive em Ilhabela? Por que não se muda daqui? Se é migrante, o que o trouxe para cá e o que o mantém aqui? Esperança?

Comentários são livres.

quarta-feira, junho 21, 2006

Matando o mensageiro

Infelizmente não tive chance de divulgar neste blog a audiência promovida pela Câmara Municipal de Ilhabela sobre balneabilidade das praias. A audiência teve a presença de três representantes da Cetesb, entre eles a gerente responsável pelo trabalho de monitoramento das praias paulistas. A explicação foi bastante complexa e detalhada, bastante esclarecedora.

Sobre as explicações não há o que comentar. A questão da balneabilidade das praias já foi assunto de alguns posts deste blog e todas as eventuais dúvidas que poderiam ter surgido naquelas ocasiões foram totalmente sanadas.

Vale a pena comentar, no entanto, a participação de algumas pessoas na audiência. Surpreendentemente a Cetesb foi criticada e questionada em relação à metodologia das avaliações e à forma de divulgação dos boletins de balneabilidade. Seguiu-se o princípio de "matar o mensageiro". Faltou alguém dizer a essas pessoas que

i) a Cetesb colhe informações a respeito da qualidade das praias e as divulga;

ii) a manutenção da qualidade das praias não é responsabilidade da Cetesb, mas de instituições como prefeitura e Sabesp;

iii) se as bandeiras vermelhas nas praias atrapalham o turismo (um estudo interessante a ser feito), o problema, meus caros, não é da Cetesb.

quinta-feira, junho 08, 2006

A condominização de Ilhabela



Esta discussão está dando o que falar. A proposta não é diferente de tantas outras; o erro foi tê-la divulgado no Orkut. Em dias de hoje, quem quer comprar uma casa de alto padrão não vai ao Orkut, vai a uma imobiliária e conversa com um corretor a portas fechadas.

A Odebrecht construirá um condomínio fechado (mais um) em Ilhabela, chamado Yacamin, com nhenhentas unidades, entre casas, apartamentos, hotéis, um complexo esportivo e de lazer, vista para o mar e tudo o mais que o habitante endinheirado da capital possa imaginar para seu conforto e hedonismo litorâneo. É bem possível que o empreendimento siga à risca as determinações dos órgãos ambientais, mas tenho a impressão de que as favelas ilhabelenses aumentam um pouquinho cada vez que um monstrengo condominial como esses é erguido. Disso, algumas questões:

1) A quantas anda o Plano Diretor de Ilhabela? O PDI serviria inclusive para organizar esses arroubos litorâneos das incorporadoras paulistanas.

2) Alguém — empreendedores, arquitetos, corretores — já ouviu falar de urbanismo? Fico surpreso ao perceber que o assunto é ignorado e Ilhabela acaba sendo construída à base de condomínios e favelas.

3) Condomínios precisam de muita mão-de-obra braçal para serem construídos. Terminada a construção, encerra-se o emprego. Qual o impacto social disso? Argumenta-se que o impacto social desses empreendimentos é todo ele resolvido à base de impostos: o condomínio Yacamin gerará impostos durante a construção e continuará gerando impostos depois que estiver pronto. Se isso é verdade, tanto pior, pois reforça a idéia de que empreendimentos desse tipo só precisam se relacionar com a cidade através de obrigações tributárias, constituindo assim uma espécie de anti-urbanismo.

4) Não seria adequado solicitar de empreendimentos desse porte um relatório de impacto social, à maneira dos EIA/RIMA?

5) Como esses empreendedores vêem a cidade? Como os futuros moradores vêem Ilhabela? Para eles o que é Ilhabela? Um quintal? Um parque temático? Uma cidade de verdade?

6) Não seria o Yacamin uma versão ilhabelense do Parque Cidade Jardim?

7) Que a prefeitura está se lixando pra isso, não é novidade. O executivo executa as leis e elas dizem que o máximo que se pode fazer é exigir os documentos e cobrar os impostos. Finis. Contudo, isso me parece um trabalho para os intrépidos vereadores de Ilhabela, não? Que tal pedir um pouquinho de responsabilidade social das incorporadoras da capital que desembarcam aqui com seus projetos ao estilo Alphaville?

sexta-feira, junho 02, 2006

Artigo de junho

Perdi o deadline para a primeira edição do Jornal do Arquipélago neste mês de junho, mas você pode ler em meu saite pessoal o artigo que preparei. Não fala diretamente de Ilhabela, mas tem a ver com todos nós, sem dúvida alguma:

Quero meu dinheiro de volta

A propósito, como afirmei uns posts atrás, caso eu não esteja postando por aqui (realmente tenho postado pouco neste blog), certamente estarei postando em meu saite pessoal. Dê uma olhada por lá.

A todos, muito obrigado.

quinta-feira, maio 18, 2006

Violência

Não pretendo aqui me manifestar longamente sobre os acontecimentos que têm assustado o Estado de São Paulo. Já o tenho feito suficientemente em meu saite pessoal.

Aqui, para ater-me aos objetivos deste blog, digo apenas que os fatos confirmam a idéia de que Ilhabela está mortal e violentamente ligada aos rumos que o Estado de São Paulo e o resto do Brasil têm tomado. Surpreende o fato de que muitas pessoas ainda pensam diferente; crêem que Ilhabela é um caso particular, uma exceção, não apenas no Brasil, mas no litoral norte paulista. Conversando com amigos pela internet, muitos se surpreendiam ao saber que até em Ilhabela a insegurança fechou o comércio.

Não é difícil imaginar que essa idéia possa tornar a violência por aqui um problema de proporções monstruosas. A aparente tranqüilidade com que se vive em Ilhabela nos torna mais vulneráveis do que em outros lugares. Quem vive aqui não está acostumado a preocupar-se com a segurança.

Só que Ilhabela não é exceção. Esta cidade também parou naquele 15 de maio.

Dois dias antes do avanço da criminalidade na capital, uma agência bancária foi assaltada em Ilhabela, às 11 da manhã. Durante o fim-de-semana e sobretudo naquela segunda-feira fatídica, diversas ocorrências foram registradas nesta cidade.

Ontem, o Imprensa Livre, principal jornal do litoral norte, com sede em São Sebastião, foi atacado e teve seu parque gráfico incendiado.

Em seguida, o governador Claudio Lembo vem a público para dizer que isso é culpa da burguesia.

Tudo está perdido. Se alguém tiver alguma solução, por favor compartilhe-a. A minha é esta.

quarta-feira, maio 10, 2006

Metendo a colher em Ilhabela

Meu artigo na edição de maio no Jornal do Arquipélago.

quarta-feira, maio 03, 2006

Manifestação na travessia

A manifestação não aconteceu. O Departamento de Trânsito de Ilhabela (DSTM) fez boletim de ocorrência preventivo e melou a coisa toda, conforme informa o noticiário do Litoral Virtual de hoje.

Seja como for, a quase-manifestação, capitaneada pela Câmara Municipal de Ilhabela, é um sinal para que a DERSA saiba a quantas anda o serviço de travessia -- supondo que os outros sinais já não são mais do que suficientes. E um sinal de que há pessoas atentas à decadência da travessia.

Não pretendo me repetir. Basta lembrar que o assunto já foi tratado neste blog algumas vezes. Em meu post mais recente sobre a travessia, reproduzi uma carta que enviei à DERSA, que permanece sem resposta.

Identifico, contudo, uma falta de clareza quando acesso os saites da DERSA e da TWB, grupo responsável pela OP Mariner. Em seu saite, a DERSA informa que é administradora da travessia:

"A Dersa administra as travessias litorâneas nos litoral Norte, Centro e Sul do Estado de São Paulo."

O saite do grupo TWB informa que a OP Mariner opera as travessias:

"Sua vocação no setor aquaviário levou-a a operar, a partir de 2001, todas as travessias litorâneas de passageiros e veículos do Estado de São Paulo, sob jurisdição do DERSA."

Pergunto: quem responde pela travessia? Quem um pedestre comum deve procurar diante de um serviço visivelmente ineficiente? A DERSA ou a OP Mariner (TWB)? É possível que minha mensagem tenha sido vítima do famoso jogo-de-empurra? Devo procurar a OP Mariner, através da TWB?

A DERSA dispõe apenas de um formulário on-line, sem endereços de e-mail. Diante da ausência de respostas, desconfio que as mensagens são eliminados ou enviados para quarentena tão logo se clique em 'enviar'. A TWB oferece uma lista de e-mails, que reproduzo a seguir:

Presidência: presidencia@twbmar.com.br
Vice-presidência: vicepresidencia@twbmar.com.br
Diretoria administrativa: diretoriaadmrh@twbmar.com.br

Talvez isso sirva para alguma coisa. O formulário da DERSA, que se propõe a atender essas demandas, não serviu para nada até agora.

segunda-feira, maio 01, 2006

Ainda o fim de Ilhabela

Vivo em Ilhabela há quase 10 anos e venho para este lugar desde que nasci. Nada me impressionou tanto nestes últimos anos quanto o boletim mais recente sobre a qualidade das praias. Das onze praias que a Cetesb avalia semanalmente, nove foram consideradas impróprias para banho. Em março de 2004 foi obtido o pior resultado desde que as avaliações começaram a ser feitas -- dez praias impróprias; naquela ocasião, somente a praia do Saco da Capela estava própria para banho --, mas tratou-se de uma ocorrência isolada num mês que apresentou águas limpas a maior parte do tempo. O que torna o fato tão alarmante desta vez é que ele repete o resultado anterior (nove praias impróprias e no caso de algumas praias, como Pinto, Perequê e Siriúba, uma sucessão de dois meses de bandeiras vermelhas) e nos faz perceber que a poluição passou a fazer parte do cotidiano das praias ilhabelenses.

Tão surpreendentes quanto os resultados das avaliações feitas pela Cetesb são as reações a eles. Em grupos de discussão em que repassei essas informações houve algumas reações apaixonadas. Algumas pessoas ainda acham que falar dos problemas da cidade significa falar contra a cidade, como se esconder tais informações pudesse eliminar os problemas a que elas se referem. Tentam, desta forma, repudiar a pessoa que porta a informação e a entidade que a divulga, sem, é claro, sequer tocar no problema em si (a poluição das praias), muito menos em suas causas.

Aparentemente não há nada de estranho com os boletins -- que seguem legislação e procedimentos que não são fixados pela Cetesb -- tampouco com a divulgação, feita discretamente no saite da instituição, com freqüência regular e previsível. Estranha é a reação das pessoas que acham que o portador da má notícia é também responsável por ela. Estranha mas compreensível. Quando nos deparamos com a informação de que a poluição das praias ilhabelenses não é exceção, mas a regra, somos obrigados a admitir que Ilhabela acabou, que finalmente nos igualamos a qualquer outro lugar decadente no quesito "qualidade das praias". E isso, para quem vem para Ilhabela embalado por slogans como "Ilhabela, meu paraíso" ou "Ilhabela, campeã de preservação", deve ser um balde de água fria.

A psicologia identifica esse comportamento como um dos mecanismos de defesa utilizados quando o indivíduo se vê diante de uma ameaça à realização ou preservação de seu objeto de desejo. É muito mais fácil negar a realidade, inclusive eliminando o mensageiro, do que considerar a possibilidade da mensagem ser verdadeira e pensar que o sonho acabou. A má notícia, no caso de Ilhabela, abala diversos dogmas que sustentaram e moveram a sociedade e a economia locais. Admiti-la significa mexer nas mentes e nos bolsos.

Se existe um paraíso, ele nunca esteve em Ilhabela, mas em tudo aquilo que pode ser considerado externo à cidade. Talvez esse critério sirva ao Parque Estadual, por exemplo, cuja existência é hoje miseravelmente dependente da legislação e da coragem de um punhado de fiscais. Eu acreditava que esse critério pudesse ser aplicado também às praias, mas elas nunca estiveram desligadas da cidade. O emporcalhamento crescente das águas do Canal de São Sebastião demonstra que as praias sempre estiveram mortalmente atreladas ao crescimento de Ilhabela.

As obras de saneamento básico realizadas pela Sabesp são consideradas uma evolução pela maioria das pessoas, sobretudo as autoridades. O esgoto é tirado das fossas, das casas, dos lotes, o que diminui o risco de contaminação dos córregos e de lençóis freáticos. Contudo, tiram do indivíduo a responsabilidade por seus dejetos e os lança no Canal de São Sebastião. Ainda que isso inclua tratamento adequado, surgem duas perguntas: 1) até que ponto o tratamento que o esgoto recebe é capaz de preservar a balneabilidade das praias de Ilhabela?; 2) o Canal de São Sebastião tem condições de receber esses dejetos?

Para desgosto de meus conterrâneos, já declarei algumas vezes em outros artigos que Ilhabela acabou. A beleza de Ilhabela -- que seu próprio nome insiste em afirmar -- é cenográfica. Estas afirmações, é claro, exigem longas e cansativas discussões técnicas, filosóficas e políticas. Embora incipientes, elas são uma tentativa de trazer à luz uma questão simples: se a economia e o turismo ilhabelenses se desenvolveram por causa de suas belas praias e hoje essas praias estão poluídas, o que mais falta para reconhecermos o fim de Ilhabela?