Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Pelo fim do TEBAR

Era para ser um santuário...

O Terminal Marítimo Almirante Barroso já deu o que tinha que dar. Além das novas tecnologias de extração e transporte de petróleo, o mundo cada vez mais se volta às fontes de energia renováveis.

Já passou da hora de desativar essa porcaria. Transformem o extenso atracadouro de petroleiros num píer para pescadores e para turistas. Libertem o Canal de São Sebastião da dança macabra de petroleiros e rebocadores e do risco constante de acidentes terríveis, como derramamentos de petróleo e coisas ainda piores.

Desativem e desmontem os tanques no centro da cidade de São Sebastião. Aquela área gigantesca serviria muito bem como centro turístico, como extensão do Parque Estadual da Serra do Mar, que a duras custas resiste à expansão urbana.

Reconheçam a verdadeira vocação do arquipélago de Ilhabela e de seu entorno: era para ser um santuário, nada menos do que isso.

Ainda dá tempo.

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Eu sei que a idéia é maluca e inexeqüível, mas me respondam:

1) Do que propus acima, o que pode ser feito?

2) O TEBAR é o reflexo de um país motorizado. O que seria necessário fazer para que uma proposta de desativação do TEBAR não pareça maluca?

3) Como seriam as coisas se Ilhabela fosse para o Estado de São Paulo o que Fernando de Noronha é para o Brasil?

4) A minha idéia é mais maluca do que a da Companhia Docas?

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Considerem também o seguinte:

1) Se a Companhia Docas ignora a vocação desta região e propõe uma expansão de um tipo de infra-estrutura que já trouxe problemas suficientes, eu, como cidadão comum, tenho o direito de elaborar propostas também. Todo mundo tem esse direito.

2) A simples proposição de idéias não significa muita coisa, mas significa mais do que apenas indignar-se com as cagadas dos desenvolvimentistas. Se eles querem ser ouvidos, peço que me ouçam também e que ouçam todos os que tiverem outras idéias. Coloquem todas as idéias em discussão. Abram a discussão. Considerem, por um instante, que as comunidades caiçaras que viviam no lado continental de Ilhabela ainda têm tanto direito sobre este arquipélago quanto a Petrobrás, a Companhia Docas, a Prefeitura de Ilhabela e qualquer outra comunidade, instituição ou grupo.

3) A vocação de Ilhabela e do Litoral Norte de um modo geral não foi totalmente destruída. Recentemente muitas pessoas testemunharam a presença de baleias no Canal de São Sebastião. Ainda há pessoas que se admiram com isso e que vêem em fatos desse tipo TODA a razão de ser deste lugar. Realmente, ainda dá tempo de fazer algo para resgatar essa vocação.

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Notas sobre a polêmica da ampliação do porto de São Sebastião


Eis uma coleção de anotações sobre a discussão do mês no Litoral Norte.

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Toda semana vou a Caraguatatuba, onde comecei a trabalhar uns meses atrás. Sabe o que vejo por lá? Uma cidade em efervescência.

Na memória trago imagens de Caraguatatuba de mais de vinte anos atrás. Era um lugar decadente. Àquela época era difícil imaginar que essa cidade poderia tornar-se algo além de mera passagem rodoviária para as demais cidades do Litoral Norte. Decerto Caraguatatuba não tem as belezas naturais das cidades vizinhas, mas hoje tem algo que elas não têm: mais de 100 mil habitantes, que infelizmente precisam consumir, deslocar-se e habitar e que inevitavelmente produzem lixo e esgoto.

O desenvolvimento econômico tem um preço, é claro, e com ele qualquer lugar fica exposto à avalanche de problemas urbanos que todos nós já conhecemos. A essência do que se convencionou chamar de «desenvolvimento sustentado» está justamente na possibilidade de obter desenvolvimento social e econômico sem esgotar os fatores que impulsionaram e que mantêm esse desenvolvimento.

O que torna o desenvolvimento sustentável possível? Três coisas:

1) governo disposto a aplicar o dinheiro público no bem público
2) população que preze o patrimônio social e ambiental
3) cultura e educação, somatória que dá origem aos dois itens acima

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Quem é contra a ampliação do porto de São Sebastião está fazendo a lição de casa? Eu queria saber:
  1. Quantas dessas pessoas foram à audiência sobre a ampliação do porto a pé ou de bicicleta?
  2. Mesmo que não usem estes meios de transporte, quantas pessoas estão realmente dispostas a usá-los?
  3. Quantas dessas pessoas votaram (ou ainda votam) no PT e no PSDB e em seus aliados?  
  4. Quantas dessas pessoas chegam a fazer campanha para estes dois partidos e para seus aliados? 
  5. Quantas dessas pessoas têm mais de um aparelho de TV em casa? 
  6. Quantas dessas pessoas consomem mais do que precisam? 
  7. Quantas dessas pessoas se esforçam para reduzir o consumo e a produção de lixo? 
  8. Quantas dessas pessoas realmente sabem qual é o destino do lixo e do esgoto produzido em suas casas?
  9. Quantas dessas pessoas ainda acreditam no aquecimento global?
  10. Quantas dessas pessoas acreditam que é preferível entregar a Amazônia às ONGs estrangeiras a permitir que ela seja administrada (e, possivelmente, devastada) pelas mãos dos próprios brasileiros?
  11. O que essas pessoas têm a dizer sobre a evolução da condição ambiental de Ilhabela nos últimos 40 anos? Elas se banham nas praias do Perequê, do Saco da Capela e do Itaguassu? Se não, por que? Se sim, quantas micoses e otites nos últimos anos? Que tal a fragrância de esgoto?
(Aliás, eu sou do tempo em que era possível tomar banho de mar na Vila.)

Quinta-feira, Novembro 03, 2011

Morar em Ilhabela


Muitas pessoas têm me mandado emails pedindo informações sobre morar em Ilhabela. As perguntas vão desde as minhas impressões sobre este lugar até itens mais objetivos, como custo de vida e perspectivas de obtenção de trabalho.

Este post tem como objetivo reunir as informações que tenho transmitido a essas pessoas e acrescentar mais algumas que, acredito, podem ser úteis para quem pensa em morar em Ilhabela num futuro breve.

Por partes.

Segunda-feira, Julho 25, 2011

Anti-cidadania



A cidadania começa quando o indivíduo torna-se capaz de ver-se como alguém dotado de um mínimo de autonomia e de responsabilidade pelos próprios atos. Só depois disso é possível compreender os acontecimentos públicos e as idéias correntes, bem como o papel que o próprio indivíduo tem nisso tudo. Não há melhor definição de anti-cidadania do que a imagem do sujeito que se queixa do mau cheiro de um lugar sem perceber seus próprios dejetos espalhados no chão.

Trecho de meu artigo mais recente, publicado no site da TV Ilha.

Para ler na íntegra, clique aqui.

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Sábado, Maio 07, 2011

A verdade não está lá fora


«(...) são poucas as pessoas que se contentam com a riqueza das coisas simples. O conforto metropolitano faz falta para essas pessoas, que se incomodam com os pés sujos de areia ou de lama. Essas pessoas preferem burocracia, maquiagem, leis e um tipo de conforto que flerta com aparelhos de ar condicionado, guias turísticos ocos e palavras e ações oficiais. São gente que não gosta de gente. Gente que não gosta de lugar. Gente que constrói demais, que modifica demais, que derruba demais, que gasta demais e que vende demais. E que depois se queixa que Ilhabela já não é como antes. Essa gente merece passar as férias na Disney. Essa gente só quer souvernirs.»

Trecho do meu artigo mais recente. Leia na íntegra clicando aqui.

Quarta-feira, Abril 13, 2011

Cultura salva vidas


Meu artigo mais recente no jornal Canal Aberto.

Japão e Uganda têm lições valiosas a ensinar ao resto do mundo e demonstram, para quem ainda duvidava, que a cultura salva vidas. E o Brasil, o que tem a ensinar? Carnaval, samba, futebol? Não estamos falando de divertir e entorpecer pessoas com banalidades, mas de salvá-las. Mais do que tempo e recursos, perdem-se vidas enquanto escolas, universidades, oficinas e centros culturais, secretarias e ministérios seguem acreditando na idéia de que cultura é oba-oba e, no máximo, estofo intelectual. Enquanto o Brasil segue firme como o país da permissividade e ocupa o penúltimo lugar no desempenho escolar, leis de apoio à cultura patrocinam filmes sobre traficantes e prostitutas.

Sexta-feira, Março 18, 2011

Ciclista, esse incompreendido

Ontem na Câmara Municipal de Ilhabela houve a não-audiência acerca do projeto dos novos trechos da ciclovia do arquipélago. «Não-audiência» porque o Executivo municipal não compareceu e, portanto, ninguém viu o projeto para discuti-lo. O noticiário completo pode ser lido aqui.

Mesmo sem o projeto, sabe-se que a proposta da Prefeitura prevê novamente o uso da orla e a construção de uma ponte estaiada no mar, na Barra Velha. Sabe-se também que o custo será alto, sobretudo pelas dificuldades técnicas de implantar os novos trechos praticamente sobre o mar.

Algumas ponderações a respeito da ciclovia -- a atual e a que se pretende construir:

1) Ciclovia no mar não, por favor. Mar é pra peixe, pra turista, pra banhista, pra criança, pra nadar e tomar sol, pra diversão e lazer. Já é suficientemente preocupante o fato de boa parte da orla ilhabelense ter sido tomada por casas, muros, píers. Passar uma ciclovia não apenas não reverterá este quadro como tomará ainda mais espaço que originalmente devia servir pra peixe, pra turista, pra banhista...

2) Além da questão do espaço, há também o fato de que o mar se revolta às vezes. Mesmo que a nova ciclovia seja uma jóia da engenharia, ela não será suficiente para compensar a (in)cultura brasileira, fortemente inclinada a se lixar para a manutenção das vias públicas.

3) Não menos grostesca é a idéia de marginalizar ainda mais os ciclistas, como se gostássemos de pedalar por caminhos ermos, pouco iluminados e monitorados. Quanto mais afastada das vias públicas a ciclovia estiver, pior para todos, principalmente para os ciclistas.

Sobre este último item vale a pena estender-me com algumas explicações.

Ciclovia deve ser exceção, não a solução habitual para oferecer algum conforto para ciclistas. Além de custosa e difícil, a construção de uma ciclovia estabelece um território de uso exclusivo para ciclistas. A maioria dos ciclistas acredita que isto é bom, mas não é. A ciclovia é uma forma de oferecer conforto aos ciclistas, mas é também uma forma de excluí-lo do trânsito. Motoristas que não sabem lidar com a presença de pedestres e ciclistas no trânsito, continuarão não sabendo. Em outras palavras, uma ciclovia é uma excelente forma de dizer aos motoristas que eles continuam sendo os protagonistas do trânsito.

No Japão, um dos países em que a bicicleta é meio de transporte comum e seu uso é generalizado, raramente se vêem ciclovias. O que se vêem são calçadas largas nas avenidas e pedestres e ciclistas as compartilham, sem incidentes. O ciclista é livre para usar a avenida, desde que use capacete. Ruas menores não possuem calçadas, muito menos ciclovias: pedestres, ciclistas e automóveis dividem o mesmo asfalto, que no máximo recebe uma faixa indicando a porção mais adequada para os pedestres.

Pode-se dizer que lá é assim porque o povo japonês é educado. Surge aí o famoso dilema de Tostines: eu realmente não sei se o trânsito de bicicletas pode ser assim no Japão porque lá as pessoas são educadas ou se as pessoas são educadas porque foram expostas a situações em que a sobrevivência e o convívio nas áreas públicas dependia de um mínimo de educação. No caso de Ilhabela, diante de um dilema desses, opta-se pela segregação pura e simples. A visão ilhabelense é de que o ciclista é e deve continuar sendo um marginal mesmo. Dilema resolvido.

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A propósito da marginalidade inata do ciclista, vejam que belezura o folheto que foi distribuído à entrada do plenário da Câmara Municipal de Ilhabela (sem identificação da autoria), na noite da não-audiência:



As idéias defendidas são razoáveis. De fato, ciclovia na orla será uma barca furada (talvez, literalmente). No entanto, as ilustrações insinuam que o ciclista é a causa dos problemas citados, enquanto que a realidade é um pouco diferente.

Imagem 1 -- Riscos de acidentes
De fato, quando a ciclovia é construída entre a calçada e a praia, os riscos de acidentes existem, como já indiquei várias vezes neste blog. Uns anos atrás a Prefeitura caiu na besteira de construir uma ciclovia desse tipo, ignorando esses riscos. Felizmente os acidentes envolvendo pedestres e ciclistas são raros, mas o risco permanece e pedestres continuam caminhando na ciclovia. Não há fiscalização, não há orientação, tampouco sinalização decente. A imagem do ciclista pedalando displicentemente, olhando para a moça de biquini não corresponde à realidade da maioria dos ciclistas, que também são vítimas de uma ciclovia pessimamente projetada. Uma ciclovia ruim e constantemente ocupada por pedestres obriga o ciclista a ficar mais atento (o que, obviamente, não é um argumento a favor de que se construam mais ciclovias ruins).

Imagem 2 -- Impacto ambiental e paisagístico
Por que diabos uma propriedade precisaria separar-se de uma ciclovia com alambrado, arame farpado e cão de guarda? Nada a favor de que se construa a ciclovia sobre a areia da praia, mas mais uma vez o ciclista é representado como o vilão, o inconveniente, o segregável. De qual mundo de sonhos veio essa imagem?

Imagem 3 -- Riscos de mortes e outros crimes
Alguém aí sabe o número de ocorrências criminais ocorridas na ciclovia atual? Será este número maior do que o número de ocorrências que ocorre nas ruas e calçadas de Ilhabela? Ou, talvez, o número de bicicletas roubadas e furtadas fora da ciclovia? «Prováveis» é um termo que demonstra descompromisso com a realidade; recorre-se às probabilidades somente quando não há dados suficientes -- alguém os procurou antes de compor esse panfleto? Ademais, na ilustração, o sujeito à direita é um ciclista-assaltante?!? Porca miséria.

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Perguntas necessárias, mas que, creio eu, permanecerão sem resposta:

1) Quantos ciclistas foram ouvidos para compor esse panfleto?
2) E para compor o projeto da nova ciclovia?
3) Quantos funcionários da Secretaria de Obras usam a bicicleta como principal meio de transporte?

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Leiam também:
Ciclovias são realmente necessárias?
Não use a ciclovia
Ciclistas Urbanos de Ilhabela