sábado, janeiro 28, 2006

Artigos de janeiro

Leiam em meu saite pessoal meus artigos de janeiro nos jornais de Ilhabela:

Por uma oposição melhorzinha, no Jornal da Ilha.

Sinal vermelho para o turismo, no Jornal do Arquipélago.

Aproveitem e deixem um comentário por lá.

Aos meus seis leitores, muito obrigado.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Meu direito de fazer cocô na praia


Decidi que farei cocô na areia nas próximas vezes que eu for às praias de Ilhabela. Se me virem agachado na praia, enrolado numa toalha, podem apostar: estou fazendo cocô. A toalha é necessária, pois não quero ser preso ou processado por atentado ao pudor. Aliviado, sim; deselegante ou desrespeitoso, nunca. Mas, independentemente das circunstâncias, deixarei na areia as minhas fezes.

A idéia me ocorreu na tarde de hoje, quando, correndo à margem da praia do Siriúba, encontrei um sujeito com seus filhos e dois labradores que corriam graciosos na praia. Um deles (cães, não filhos) fez xixi na areia -- sabe-se lá o que fez antes, ou depois.

Ora, se cães devidamente vacinados, nomeados e acompanhados por seus donos podem usar a praia como banheiro, maior direito tenho eu -- que, além de ser vacinado, ter nome e companhia, pago impostos e vivo em Ilhabela há muitos anos. E, ademais, se para os cães existe lei e não existe fiscalização, para mim, a quem não existe nem lei nem fiscalização, não me será proibido realizar meu intento.

Talvez assim -- quando as praias de Ilhabela estiverem emporcalhadas não apenas pelo esgoto que desce os córregos mas também pelos montinhos de bosta que se acumularão na areia das praias -- o poder público aplique a lei que prevê punição para os animais que levam animais às praias. Até lá, exijo meu direito de fazer cocô na praia.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O câncer de Ilhabela

Proposta para a próxima temporada -- especialmente para a próxima temporada de navios de passageiros: um curso de etiqueta para turistas. Político que propuser isso nas próximas eleições vai ganhar o meu voto.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

O turismo às avessas


Sim, graças aos turistas Ilhabela pode encontrar alguma prosperidade a cada verão. Os comerciantes não têm do que reclamar. Os moradores, de alguma forma também não, pois tudo é movido pelo turismo. Tudo, sobretudo porque a maioria dos moradores já foi turista outrora. Assim, até mesmo algo muito local, como a construção civil, move-se por causa do turismo. Todos sabem que o mercado imobiliário cresce um pouquinho durante e principalmente logo depois de uma temporada de verão.

Mas perceba que nem sempre foi assim. As demandas que hoje existem não existiam antes (antes = quando o turismo não era uma atividade econômica significativa). As praias permaneciam vazias e limpas, com águas cristalinas. Matas continuavam intocadas, assim como as cachoeiras, que se mantinham tranqüilas, alheias aos jipes e às motosserras. Essa condição é obviamente perfeita para o turismo.

O que difere o turismo sustentável do turismo insuportável é a educação das pessoas e uma dose saudável de controle estatal -- políticos são bem pagos inclusive para isso.

Nunca estive em Bonito, MS (quem esteve, por favor dê seu testemunho na área de comentários deste post), mas parece-me que quem pensa nesse lugar e em visitá-lo um dia, sabe de antemão que entrará numa espécie de santuário, cuja preservação depende de sua atitude como turista. Essa consciência foi construída através da própria preservação, resultado da parceria entre proprietários de terras e poder público. A lógica é simples e se você já entrou numa loja de cristais ou numa grande biblioteca sabe do que estou falando: a qualidade do lugar inspira uma atitude que ajuda a mantê-lo.

Em Ilhabela tem-se a impressão de que as coisas são feitas ao contrário. Cria-se a avalanche sazonal de turistas e depois, caso restem dinheiro, energia e tempo, pensa-se em criar uma estrutura adequada, que incluiria preservação das águas, das matas e do pouquinho de cultura que o lugar possuía -- as matérias-primas do turismo.

Diante disso, não surpreende que as bandeiras vermelhas da Cetesb sejam cada vez mais freqüentes nas praias de Ilhabela. E o prefeito ainda duvida do diagnóstico...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Frases para o novo ano

Ilhabela já era. Se você duvida, veja com atenção os boletins de balneabilidade da Cetesb. Se a condição das praias -- a razão direta ou indireta de 90% das atividades econômicas de Ilhabela -- não é argumento suficiente, o que será?

A melhor coisa a se fazer em Ilhabela é emigrar. Esta foi dita por um amigo, há alguns anos. Não em tom profético, mas ela se cumpre a cada ano.

Ano eleitoral: salve-se quem puder. 2005 tentou cassar o prefeito e o presidente da Câmara. O que 2006 nos reserva, só Deus sabe.

O turismo tem dois preços. Um é pago pelos turistas, com passagens, hospedagens, refeições. E o outro?

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Music for the royal fireworks

Eu não sei quanto a Prefeitura gasta estourando bombinhas para os passageiros dos navios que têm visitado Ilhabela. Sei que não é pouco. Embora a queima seja breve, os fogos utilizados são bonitos e caros. Amaldiçoo o sujeito que teve a idéia de coroar cada navio de passageiros com uma queima dessas -- dinheiro público voando pelo espaço, transformado em fumaça e barulho. Digam que sou ranzinza e que os fogos são espetaculares, eu concordarei, mas pense no seguinte:

- O barulho dos fogos, que pode ser ouvido num raio de 2 ou 3 quilômetros, irrita animais de todos os tipos, domésticos ou selvagens. Pode parecer pouco, mas pode ser demais.

- Ainda que o dinheiro gasto numa joça dessas permanecesse na Secretaria de Turismo e fosse dedicado todo ele ao circo de recepção aos passageiros, há outras formas mais proveitosas de gastá-lo. Uma palavra-chave? Ecologia.

- Muitos dos navios deixam o Canal de São Sebastião por volta de meia-noite, momento em que as pessoas que vão servir aos turistas no dia seguinte já estão dormindo.

- Na China, acreditava-se que fogos de artifício afastavam demônios -- e eles eram de fato utilizados para este fim. Aqui em Ilhabela eles são utilizados porque supostamente os farão voltar em breve.

- Vai ficar feio demais se os passageiros dos navios forem embora sem ver um show pirotécnico de 4 minutos? Vai causar má impressão?

- Aliás, por falar nisso, o que causa boa impressão é gente. Quer outra palavra-chave? Educação. Não, não estou falando de escolas, de merendas e de bibliotecas. Ainda estou falando de turismo.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

O Caminho de Castelhanos


Quando me vejo consternado com aquilo que tem sido feito de Ilhabela -- devastações, agressões, politicagens etc. -- não me ocorre sugerir ações opostas, como campanhas de educação ambiental, manifestos pró-natureza ou pró-ética ou qualquer tipo de militância na Câmara Municipal. Bastaria que cada pessoa fizesse, ao menos uma vez na vida, algo parecido com o que fiz uns anos atrás: ir a pé até a praia de Castelhanos, sozinho, em silêncio, banhar-se nas águas da Cachoeira do Gato, dormir ao relento, na areia, acordar com os primeiros traços de claridade, embrenhar-se na mata ainda escura, mais uma vez em silêncio, e observar a alvorada no alto da serra.

Tudo isto deve ser feito de preferência com os pés descalços (as dificuldades que isso impõe são parte do processo), com roupas leves e uma mochila que contenha pouca coisa além de alimento e um meio de registrar esse caminho (uma pequena câmera fotográfica e/ou um caderno).

Não é necessário "espiritualizar" esse caminho. Basta permitir-se cumpri-lo, deixar o corpo percorrer a distância que liga o bairro do Reino à praia de Castelhanos (uns preferirão a praia dos Castelhanos). Naturalmente o cansaço virá: antes o do corpo, depois o da mente, nauseada pelo silêncio e pela paisagem monótona da mata fechada e de ladeiras intermináveis. Mas serão cansaços momentâneos que, superados, trarão renovação.

Embora projetos, leis e investimentos sejam coisas boas, para tornar Ilhabela um lugar um tantinho melhor eles não são mais necessários do que uma longa caminhada até a praia de Castelhanos. Vá até lá, volte e conte-me como foi, o que viu e o que sentiu.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Edil


Hoje esbarrei com um dos vereadores ilhabelenses. É salutar não mencionar o nome, ao menos por enquanto:

Eu: -- E então [nome do vereador], a lei do nepotismo vai ser aprovada?
Vereador : -- Oi, Dona Salomé! Quanto tempo! Como vai a família?
Eu: -- ...?

E assim se arrasta a política de Ilhabela.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Boas maneiras


Foi aprovada na última segunda-feira (28), o projeto de lei nº41/2005, de autoria do vereador Joadir Luiz Capucho, que "dispõe sobre a proibição de fumar nas escolas do município de Ilhabela". Nada a favor do fumo, sabidamente prejudicial à saúde, mas a lei fez-me lembrar de um trecho do livro O Jardim das Aflições, do filósofo Olavo de Carvalho:
"O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas, mesmo as espontâneas e informais -- um galanteio, um olhar, a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fechado. Aqueles, por exemplo, que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo das boas maneiras".

segunda-feira, novembro 28, 2005

Temporada de navios


Hoje teve início a temporada 2005-2006 de navios de passageiros. Diante daquele arrastão de vans, jipes e atendentes que transformavam o receptivo numa espécie de mercado persa, imaginei um slogan para o acontecimento:

Seja bem-vindo, deixe seu dinheiro e volte sempre

sábado, novembro 26, 2005

Parente é serpente

Ainda tramita na Câmara o projeto de lei nº23/2005 de autoria do vereador Dr. Guilherme (PMDB) o projeto que pretende acabar com o nepotismo no município. Conforme seu próprio texto, a lei proposta “Proíbe a contratação de parentes até o segundo grau no âmbito da administração direta, indireta, autarquias e fundações do município de Ilhabela”. O projeto deve ir a plenário ainda este ano, se o recesso da Câmara permitir.

A polêmica em torno do nepotismo surgiu quando ficou claro e evidente que a prática é mais do que comum em Ilhabela. Inspirados pelas declarações do ex-deputado Severino Cavalcanti, os acusados não demoraram a buscar e oferecer explicações que davam ares de moralidade a um ato típico de pessoas imorais. O principal argumento a favor do nepotismo é a confiança que os empregadores podem depositar em seus empregados, já que são todos seus parentes. Vejamos se esse argumento é válido:

1) Desde Caim e Abel, o parentesco já não significa muita coisa. Uma pessoa confiável será confiável independentemente de parentesco.

2) A confiabilidade que um governante espera de seus parentes é do tipo que não interessa aos cidadãos; trata-se da confiabilidade que cria uma cortina de fumaça nos negócios públicos, que torna um governo cada vez menos transparente e restrito a um determinado clã.

3) Por esta razão, trabalhar rodeado de parentes inspira mais a informalidade dos sabujos e dos maliciosos do que a competência dos técnicos e a sabedoria dos aristocratas.

4) O que, portanto, poderia ser um argumento a favor do nepotismo, é na verdade o papo mole de quem pretende justificar o injustificável sem perceber os riscos de tal atitude para a população e para si mesmo.

Além destas razões, há outro aspecto moral, que determina que o administrador público ofereça chances iguais de trabalho a parentes e não-parentes. Ainda que o pistolão seja uma instituição mais sólida do que muitas prefeituras brasileiras, é importante dizer e lembrar aos adeptos da lei de Gérson que se trata de uma prática absolutamente imoral e inaceitável. Privilegiar um parente pode ser uma atitude natural para a maioria das pessoas -- e de fato é, em qualquer sociedade que tenha os laços familiares como fundamento para uma vida civilizada.

Quando, no entanto, o bem estar da população e o dinheiro público entram em jogo, qualquer político sensato deve assumir a responsabilidade que o cargo lhe exige e colocar no pedestal de suas decisões não a sua família, mas as virtudes que o definem como um aristocrata. Não que o político deva abandonar sua família, como o monge que se retira para aprender a vida monástica e para encontrar o nirvana, mas ele pode e deve atender àquilo que eleitores expressaram com o voto: o desejo de que o político seja um misto de líder equilibrado, administrador competente e homem justo e honesto. Rodeado de parentes, poucas pessoas sabem ser algo além do marido prestimoso ou do irmão complacente. Ilhabela não precisa disso.

sexta-feira, novembro 18, 2005

É ver para crer


Nota publicada no Diário do Litoral Norte de hoje:
Obras no antigo fórum — terão início na próxima segunda-feira, 21, obras de restauro e revitalização do antigo prédio da Cadeia e Fórum de Ilhabela, tombado em agosto de 2001 pelo Conselho Nacional de Defesa ao Patrimônio Histórico. O edifício vai abrigar a sede administrativa do Parque Estadual de Ilhabela e espaço da Secretaria Municipal de Cultura. O prédio restaurado deverá ser entregue à população no mês de abril do próximo ano e o valor gasto será por volta de R$600 mil, recursos oriundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e só será possível graças ao Projeto de Ecoturismo, do Governo do Estado, que começa a ser implantado.

O grifo é meu. Duas coisas chamam a atenção — eis as razões do grifo:

1) A ausência da Prefeitura. A nota sugere que a participação municipal só acontecerá na condição de usuária do espaço — o que é bem provável e nos leva ao segundo item.

2) O Projeto de Ecoturismo (leia aqui o texto integral do projeto, em formato PDF), algo que deveria ser prioritário para o município, é, como a reforma da Cadeia, uma iniciativa do Governo Estadual. Não vou me surpreender se a Prefeitura, mais uma vez, resolver colher louros alheios.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Manual do internauta ilhabelense

Foi-se o tempo em que Ilhabela era (mal) servida por apenas um provedor e apenas em alguns bairros. Hoje quase toda a cidade dispõe de conexão rápida e o número de moradores ligados à rede tem aumentado bastante. Apesar disso, a internet ainda está longe de representar para Ilhabela o que representa para outras cidades.

A lista que apresento a seguir reúne endereços que considero importantes, interessantes ou úteis que tenho encontrado na internet. Muitos desses espaços são sites do bem, que ampliam a consciência que as pessoas têm em relação a Ilhabela, que mostram faces inusitadas do arquipélago e que deixam claro que aqui há pessoas inteligentes, conscientes e dispostas a fazer deste lugar algo mais do que um canteiro de obras ou de um recanto de veraneio e baladas. Longe de constituir um manual definitivo, espero que esta lista seja ao menos um começo.

www.santaseiva.com.br: já faz tempo que o Galeno não escreve no Jornal da Ilha; para saber o que ele anda fazendo basta acessar o site do Sítio Santa Seiva, um espaço dedicado à pesquisa ambiental e à arquitetura ecologicamente correta. Afinal e felizmente, Ilhabela não é só predação.

www.kalinesia.com : fotolog de Ruben Bianchi, um dos cabeças do Espaço Pés no Chão. Lá o internauta encontrará fotos dos eventos e dos trabalhos do Espaço. Se existisse algo como uma coluna social do bem, essa coluna seria o Kalinesia – sem caras e bocas, com muita cultura e inteligência.

www.acordailha.com.br : site de Marie Asmar, arquiteta e designer. Além de informações pessoais e de um belo portfolio, há também a mais completa lista de hotéis, chalés, pousadas e estabelecimentos comerciais de Ilhabela (todos sabem que as listas “oficiais” são incompletas) e uma foto do Canal de São Sebastião, atualizada diariamente.

aikido.t35.com : site do grupo de Aikido de Ilhabela. A arte marcial que desenvolve corpo, mente e espírito e que não tem competições está representada em Ilhabela desde 1994. Além de explicações gerais sobre a arte, no site há também fotos do grupo, horários de treinos e alguns artigos publicados neste Jornal da Ilha.

www.ilhabela.sp.gov.br/leis.htm : esqueça a abertura extravagante do site da Prefeitura e vá direto à página que traz as leis municipais (muito mais organizada e agradável do que a página da Câmara Municipal). Entre elas, a que prevê melhor atendimento nas agências bancárias ilhabelenses e a que pretende solucionar de vez a questão dos cães de rua. Leis lindas e bem elaboradas, mas ignoradas (por que?).

br.groups.yahoo.com/group/ilhanet: o Ilhanet é o primeiro e-grupo dedicado a discutir temas locais. Criado originalmente com o objetivo de melhorar os serviços de Internet em Ilhabela, o e-grupo cresceu e os temas tornaram-se cada vez mais diversificados.

www.orkut.com/Community.aspx?cmm=39773 : Ilhabela no Orkut. Nessa comunidade é possível discutir temas importantes, como meio ambiente, cães de rua, violência, o impacto do turismo na cidade, o novo Fórum de Ilhabela (um crime paisagístico...) etc. Mesmo que às vezes as discussões pequem pela falta de qualidade, aos poucos os ilhabelenses vão-se habituando ao engajamento on-line.

www.skype.com : o Skype tem-se mostrado uma eficiente alternativa às tarifas abusivas da Telefonica. Diversas pessoas e empresas de Ilhabela já o têm usado como alternativa ao telefone convencional e não é difícil encontrá-las no serviço de busca do software.

www.olavodecarvalho.org : embora não se trate de um site com informações locais, a leitura dos artigos do filósofo Olavo de Carvalho é imprescindível para quem quiser entender o país e o mundo. Esqueça os jornais, os partidos, as ideologias. A verdade é feita de indivíduos.

Quem está habituado a usar a Internet sabe que há muito mais para ser divulgado. Acréscimos, críticas, sugestões, comentários serão muito bem-vindos.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Em breve, o verão


Antes de aplicar minha severidade crítica e espartana à mendacidade dos turistas deste feriado, considero, evidentemente, que fazia tempo que não havia um feriado prolongado. Este, para piorar os ânimos e os acontecimentos, coincidiu com uma trégua de um longo período de chuvas. Então, a combinação explosiva estava feita: sol, calor, feriado prolongado e turistas desejosos pelos prazeres proporcionados pela terra-de-ninguém em além-mar.

É um consenso entre moradores daqui a idéia de que todo turista faz cá nestas terras coisas que não faria na frente de sua esposa, sua mãe ou seu chefe. A travessia marítima constitui uma espécie de ritual de passagem em que o sujeito sisudo, acostumado à disciplina do trabalho exaustivo e às vezes aos nós apertados das gravatas, transforma-se no mais imbecil dos sujeitos, alguém que não vê qualquer motivo para agir com um pouco de civilidade nos três ou quatro dias que vai ficar descansando e aproveitando (sim, verbo intransitivo).

Ele tem razões para isso.

A primeira é o fato de pagar caro por esses três ou quatro dias de ócio e hedonismo. Ilhabela é um lugar caro e, para piorar, recheou recentemente mais uma edição da Vejinha que fala de lugares descolados. Pagar por algo é o salvo-conduto para o turista fazer tudo o que quiser.

A segunda razão é que a mudança de ambiente inspira a mudança de comportamento. É como ir a um prostíbulo, ao dentista ou a um grupo de meditação: é impossível manter as aparências em lugares assim.

A terceira é o tratamento a pão-de-ló que prefeitura, estabelecimentos de comércio, hotéis e pousadas dispensam a essas pessoas. No Brasil em geral e em Ilhabela em particular, turistas são crianças mimadas.

A primeira razão torna o turista egocêntrico -- como se ele já não o fosse de uma forma insuportável. A segunda razão o livra das rédeas da vergonha e do bom-senso. A terceira razão constitui o aplauso necessário para que ele tenha certeza de que as duas razões anteriores são boas o suficiente.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Sintomas


Em entrevista ao Jornal da Morada na última terça-feira, a palavra menos pronunciada pelo secretário de turismo e fomento (desenvolvimento não seria melhor?) de Ilhabela, Ricardo Fazzini, foi ecoturismo. Só pode ser um sintoma. Afinal, a temporada de cruzeiros marítimos começará em breve.

***
Frase do dia:
O homem medíocre não acredita no que vê, mas no que aprende a dizer. -- Olavo de Carvalho

segunda-feira, novembro 07, 2005

Ironia

Logo depois de enfrentar 45 minutos de fila no Bradesco eu ligo o PC e me deparo com isto.

A situação torna-se ainda mais irônica quando me lembro disto.

Há leis, há dinheiro. Falta óleo de peroba, só pode ser isso.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Paraíso perdido


Postei os seguintes parágrafos no Orkut, a respeito de meu texto Ilhabela já era. O que fazer?. Achei adequado trazer o tema para cá.

Quem puder e quiser, comente. A todos, obrigado.
O que talvez não fique claro com o texto -- por ter sido escrito há algum tempo -- é a necessidade de abandonar a idéia de que Ilhabela é um paraíso.

É lugar-comum, principalmente entre pessoas que não moram aqui, que Ilhabela é um paraíso (a maioria das pessoas usa este termo mesmo). Quando encontro amigos e amigas no MSN, muitos me perguntam "E aí, como vai o paraíso?".

Ilhabela tem uma série de vantagens em relação à maioria das cidades brasileiras, mas, mesmo fazendo uma avaliação muito bondosa, sabemos que esta cidade está longe de ser o paraíso que todos dizem que é.

Quando escrevi o texto eu pensava nisso. É necessário abandonar esse preconceito. A repetição exaustiva de que Ilhabela é um paraíso, nos leva, pela própria definição de paraíso, a uma atitude bobalhona, predatória ou no mínimo passiva.

Imagine-se num paraíso verdadeiro: o que você faria? Cuidaria do lugar e trabalharia para melhorá-lo ou tentaria aproveitar-se dele da forma mais ostensiva possível, embasbacado pela imagem da perfeição? Sinto que a repetição automática desse jargão traz mais problemas do que benefícios a Ilhabela. Afinal, o que há para ser melhorado num lugar que todos dizem que é lindo, perfeito, o céu na Terra?

É claro que Ilhabela não se acabou, ainda há muitas coisas boas aqui. Mas a simples celebração dessas qualidades não ajuda em nada, não traz nada de bom ao lugar e às pessoas que moram aqui. Não me surpreende que os turistas assumam essa versão como a mais certa e verdadeira -- porque convém ao hedonismo praticado por eles --; surpreende-me no entanto que moradores sejam capazes de ver Ilhabela desta mesma forma, sem perceber que com isso tornam-se instrumentos da predação que pretendem combater.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Ainda o Forvm de Ilhabela


É possível ser muito injusto apenas respeitando as leis.

Eu não duvido que o Fórum de Ilhabela foi construído em conformidade com as leis municipais e estaduais que regem a construção civil. Mas ninguém duvida, ao ver a Grande Caixa -- agora em fase de acabamento --, de que diversas leis foram desrespeitadas. O fato dessas leis não terem sido escritas em lugar nenhum não significa que o crime não ocorreu.

Tio Patinhas aplaudiria a não-arquitetura do novo Fórum de Ilhabela. As duas grandes muralhas das fachadas principais escondem não apenas o conteúdo do edifício -- que deve ser, pelas características de um fórum, bastante discreto --, mas também e principalmente a paisagem do rio que separa o Perequê da Barra Velha, marcada pelos guapuruvus que florescem pelo menos duas vezes por ano.

Desconheço os fatos que trouxeram à realidade aquele monumento ao mau gosto, mas ponho-me a raciocinar sobre o incidente:

1) É provável que o projeto já tenha sido enviado pronto para Ilhabela, como ocorre com a maioria dos projetos bancados pelo Governo Estadual (escolas, hospitais, conjuntos habitacionais), cabendo aos poderes municipais dizer "amém", agradecer o fato de uma esfera superior ter lembrado de uma cidadezinha vinte e tantos mil habitantes.

2) Mas o preço de um Fórum dado de mãos beijadas pelo Governo Estadual, se foi este o caso, foi alto demais. Se, ao contrário, o Fórum foi pago com verbas municipais, tanto pior. Um pouquinho de boa vontade e um concurso municipal de projetos resolveria a pendenga arquitetônica em dois tempos.

3) Projetos alienígenas, embora possam cumprir a função a que se destinam, causam alterações sérias numa cidade. A primeira alteração é na paisagem, em seguida no meio ambiente e na população. Ainda que tais alterações não possam ser medidas, elas existem. Arquiteturas imponentes demais, oficiais demais, pomposas demais, feias demais -- como o novo Fórum de Ilhabela --, localizadas à vista de todos, simbolizam aquilo que os poderes municipais crêem que seja bom para cidade. Se a prefeitura aprova uma grande caixa, o que esperar dos arquitetos que atuam em Ilhabela? Qual mensagem foi transmitida?

4) Não sei de nenhum colega que tenha pensado que o novo Fórum de Ilhabela é um bom exemplo de arquitetura, e duvido que alguém possa pensar isso a ponto de tomar aquilo como base para outros projetos. Mesmo assim, cria-se um precedente. Todo arquiteto sabe que, boas ou ruins, as colunas do Palácio da Alvorada foram copiadas à exaustão durante os malfadados anos 70, inclusive em casinhas prosaicas de quatro ou cinco cômodos.

5) Como o caixote já foi erguido e as muralhas estão lá -- com um singelo protesto de um pixador inteligente --, meu desejo é que os amplos recuos sejam preenchidos o mais rápido possível com árvores frondosas -- por exemplo, os mesmos guapuruvus que ficaram escondidos atrás do prédio. Assim, quem sabe, a aberração fique escondida sob amplas folhagens e sob o barulho de maritacas, tucanos e sabiás. Se é inviável e tarde demais para pedir uma demolição (hmm...), nunca é tarde para exigir o plantio de árvores. É para isso, aliás, que a Prefeitura dispõe de um viveiro de mudas.

terça-feira, outubro 25, 2005

O Forvm de Ilhabela

O novo Forvm de Ilhabela está em fase de acabamento. E a paisagem de Ilhabela também está sendo acabada. Veja as fotos (clique nelas para vê-las ampliadas), mas tire as crianças da sala.


Recentemente puseram o letreiro prateado, onde se lê -- com pompa e circunstância -- "Forvm Manoel Pedro Pimentel". Agora sim, ficou bacana. Muito melhor do que o Pico do Baepi, escondido em algum lugar atrás da Grande Muralha.


As linhas retas, a simetria perfeita, o branco sóbrio -- eis o Palácio da Justiça ilhabelense ecoando as boas tradições da arquitetura vernacular caiçara...


Algum sujeito malvado teve o desplante de macular a alva e extensa muralha forense com o desenho de uma árvore, um símbolo grotesco da natureza local. Como se a natureza pudesse ser mais importante do que um Palácio da Justiça. Ora, esses ecochatos... Insistem em lembrar das falsas-seringueiras que deram a vida pelo grande templo e os guapuruvus que ficaram escondidos logo atrás dele.


Aqui, um close do cruel ato de vandalismo e rebeldia do sujeito que não faz a menor idéia do que é o pogréço.

domingo, outubro 23, 2005

Assunto proibido

Aqui, meu artigo na edição de outubro do Jornal da Ilha.