Quinta-feira, Novembro 03, 2011
Morar em Ilhabela
Muitas pessoas têm me mandado emails pedindo informações sobre morar em Ilhabela. As perguntas vão desde as minhas impressões sobre este lugar até itens mais objetivos, como custo de vida e perspectivas de obtenção de trabalho.
Este post tem como objetivo reunir as informações que tenho transmitido a essas pessoas e acrescentar mais algumas que, acredito, podem ser úteis para quem pensa em morar em Ilhabela num futuro breve.
Por partes.
1) Ilhabela não é um paraíso
Parece, mas não é. As impressões que você teve quando esteve em Ilhabela ou quando viu fotos daqui são apenas impressões. Não são reais ou falsas, são apenas impressões.
É evidente que não se decide uma vida com base em impressões. Visitar o lugar em que se pretende viver é apenas um primeiro e pequeno passo. Considere que você pode ter vindo a Ilhabela num feriado ou num fim de semana de tempo bom -- ocasiões em que o arquipélago parecerá especialmente bonito e interessante. Uma manhã chuvosa numa segunda-feira ordinária poderá não parecer tão bonita e interessante, sobretudo quando se tem a obrigação de sair da cama cedo para trabalhar. Viver num lugar inclui aceitá-lo mesmo sob as condições menos desejáveis. Realmente não existe paraíso que o seja 24 horas por dia.
As pessoas mais encantadas pelas paisagens de Ilhabela poderão imaginar: «Oras, mas isto continua sendo um paraíso, não há lugar mais bonito do que este! Quanta Mata Atlântica! Quanto verde!». É verdade, a natureza ainda é generosa aqui. Mas se você conhecesse Ilhabela na década de 1970 ou mesmo na não tão distante década de 1980, notaria que àquela época a natureza era ainda mais generosa.
O que quero dizer com esta digressão é que existe algo chamado natureza e existe algo chamado cidade e é óbvio que a maioria de nós vive numa cidade, mesmo que estejamos instalados à beira de uma cachoeira, sob o silêncio das águas e do vento nas copas das árvores.
Num mundo de sonhos, as diferenças entre cidade e natureza seriam «harmonias». Infelizmente não é esse o caso de nenhuma cidade brasileira. O arquipélago de Ilhabela não é exceção, embora resista bravamente com ajuda da lei que estabeleceu os limites do Parque Estadual de Ilhabela.
Ilhabela é um lugar espetacular com uma cidade decadente instalada nele.
2) Ok, Ilhabela é acima da média
Ilhabela não é um paraíso, mas, ok, é um bom lugar para viver. Comparado com as vizinhas do Litoral Norte, é ainda melhor (que me perdoem os moradores dessas cidades, mas é algo que pode ser objetivamente discutido e verificado). O fato de Ilhabela ter piorado muito ao longo das últimas quatro décadas (das quais pude testemunhar quase três) não esconde o fato de que todo o Brasil ao redor também piorou muito. Refiro-me aqui a problemas urbanos, aqueles que mais pesam ao estabelecer o nível de qualidade de vida em uma cidade.
*
Estes dois primeiros itens são uma tentativa de instalar o futuro morador na realidade. «Realidade», aliás, aponta para os próximos itens. Deve-se saber do quê viver, como viver. Em outras palavras, como obter renda, como habitar, como viver efetivamente no dia-a-dia.
3) Trabalho e renda
Para viabilizar «tecnicamente» a mudança para Ilhabela, o primeiro passo é a organização das finanças. Isto implica saber quanto se tem para gastar no período de transição e de quê se viverá efetivamente a curto e médio prazo. Obviamente, o ideal sempre será vir para Ilhabela com trabalho e renda mensal garantidos. Isto pode ser conseguido através das seguintes formas:
i) Mantendo o trabalho/emprego que a pessoa já possuía antes de vir para Ilhabela. Difícil, mas não impossível, sobretudo com Internet à mão. Algumas pessoas têm essa sorte.
ii) Passando em algum concurso público em Ilhabela ou São Sebastião. Uma vez por ano abrem-se vagas em empregos públicos por aqui.
iii) Buscando um emprego aqui e definindo a contratação previamente.
A terceira opção pode ser fácil ou difícil, depende da área em que a pessoa atua. O mercado de trabalho em Ilhabela é bastante limitado a dois setores: turismo e construção civil (e esta depende daquela) e, portanto, sazonal, isto é, sujeito às oscilações naturais da época do ano (o setor de turismo contrata para trabalhos temporários às vésperas do verão, por exemplo).
Se você não tem uma fonte de renda garantida, um emprego definido ou uma poupança que lhe sustente em seu primeiro ano em Ilhabela, é bastante arriscado mudar-se para cá.
4) Por um sentido na vida
Uma situação bastante comum é a de pessoas que chegam a um determinado momento da vida em que decidem «largar tudo» e vir morar em Ilhabela. Acumularam um dinheiro razoável e crêem que é hora de definir como viverão o resto da vida. Não me refiro apenas às pessoas com mais idade, que se aposentam, mas também a jovens anormalmente bem-sucedidos que percebem as contradições entre o êxito financeiro e o tipo de vida que levam em cidades grandes e cheias de problemas, como São Paulo.
Trata-se, é claro, de um caso especial, em que a pessoa vem para Ilhabela não para buscar uma definição existencial, mas justamente porque já encontrou essa definição num lado importante da vida, o lado profissional-financeiro. Colheram bons frutos, possuem bom nível financeiro e bom status social, porém percebem que o lugar onde vivem simplesmente não é bom para criar filhos e netos, tampouco se presta para dar um sentido mais elevado à própria vida.
Novamente, é necessário manter o pé na realidade. O que Ilhabela tem a oferecer para pessoas nessa condição? Entre os aspectos positivos de Ilhabela, o mais abundante sem dúvida são os recursos naturais. Ainda há florestas naturais, córregos e cachoeiras, recantos que sem dúvida funcionarão bem como quintal para filhos e netos. Mas há os aspectos negativos e a decadência urbana (que também é ambiental e paisagística) dá sinais de que a cidade pode não durar muito. De que importa ter um pomar em casa e ar puro se os problemas urbanos que Ilhabela oferece são semelhantes aos de uma cidade grande?
Ao mesmo tempo, note que uma boa dose de decadência urbana tem sido um fator de desaceleração da decadência ambiental. Num país que ainda está longe de entender o que é sustentabilidade, o desenvolvimento urbano é realizado às custas do meio ambiente. Logo, uma certa dose de ostracismo sócio-urbano é sinal de que os recursos naturais foram momentaneamente deixados em paz. O mato cresce fácil em terrenos baldios.
Resta saber se tudo isso resolve suas questões existenciais.
5) Seu próprio negócio
Deixando a filosofia de lado, há pessoas que possuem um bom patrimônio e que decidem vir para Ilhabela abrir o próprio negócio. A maioria das pousadas que existem hoje foi criada desta forma. Entre meados dos anos 70 e o início dos anos 90 a explosão hoteleira e imobiliária foi movida sobretudo por esse movimento de pessoas endinheiradas que estavam cansadas da capital paulista e que perceberam as qualidades de Ilhabela e as potencialidades do turismo no arquipélago. Algumas imobiliárias também foram criadas nesta época, impulsionadas pelos primeiros veranistas.
Mas essa explosão hoteleira e imobiliária diminuiu. Creio que ainda há boas possibilidades nessas duas áreas, mas é evidente que construir, consolidar e manter uma pousada hoje é tarefa muito mais difícil do que era no início dos anos 80, época em que bastava abrir as portas, oferecer um serviço «caseiro» e pronto. Ainda que o padrão ilhabelense esteja um tanto distante do que se encontra em outros destinos turísticos consagrados, a profissionalização do setor aumentou a concorrência. Portanto, «abrir uma pousadinha» pode não ser uma boa opção, sobretudo porque não se trata de algo tão bucólico e simples como era há 30 anos.
Sabendo do estreitamento do mercado turístico e de construção civil, algumas pessoas pensam em abrir um outro tipo de negócio, inspiradas sobretudo pelo crescimento populacional (que diversifica as possibilidades de atividades comerciais e de serviços). Já me perguntaram qual tipo de negócio seria bom abrir aqui. Além de eu não ter a resposta, é claro que a resposta depende de capacidades e interesses muito pessoais. Além disso, é possivel ser bem-sucedido mesmo num mercado altamente saturado e é possível ser mal-sucedido mesmo sendo o único profissional atuando na sua área. O que quero dizer é que definir qual será o «seu próprio negócio» depende também de avaliações detalhadas do mercado e, claro, de si mesmo.
6) Morar
A super-valorização do mercado imobiliário ao longo das últimas décadas e a consolidação de Ilhabela como destino turístico importante jogaram os preços dos imóveis em patamares muito superiores ao que de fato seria admitido. Em poucas palavras, podemos dizer que o mercado imobiliário aqui em Ilhabela é irrealista e altamente especulativo.
Algumas pessoas já me perguntaram sobre valores. Do pouco que vi é possível notar que os preços praticados em Ilhabela são muito superiores aos das cidades da região. Hoje, no Litoral Norte paulista, só Maresias (São Sebastião) tem preços parecidos com os de Ilhabela.
De um modo geral, o preço a ser pago por uma casa completa e confortável no Vale do Paraíba ou no Sul de Minas é suficiente para alugar um «kitchenette» ou um apartamento mínimo em Ilhabela, para casal ou pessoa sozinha. Essas diferenças são notadas tanto na locação quanto na compra-venda de imóveis. Os preços variam conforme a época do ano e a localização, mas a especulação continua prevalecendo -- lotes vagabundos chegam fácil às centenas de milhares de reais pela simples proximidade do centro turístico.
*
É evidente que estes itens estão longe de responder todas as dúvidas e constituir soluções práticas. O que realmente importa é vir a Ilhabela e conhecer o lugar em que se pretende viver, ter a própria experiência com o lugar. O fator de maior peso na definição da qualidade da experiência sempre será a condição do indivíduo -- seus desejos, planos, limites e possibilidades.
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1 comentários:
Oi Christian
Meu nome e Edilene eu moro na California a 6 anos e agora estou pensando em voltar para casa, sou casada com Americano e tenho uma filha, o lugar que escolhemos para morar e sua querida Ilha, obrigada por suas informacoes, eu sei que o Brasil e cheio de problemas mais e o nosso dever tentar fazer todos os dias um pais melhor e acredito que vc esta fazendo sua parte.
um abraco e muito obrigada
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